SÓ PARA VERSOS QUE LI...

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

o prazer do texto

"Na guerra das linguagens, pode haver momentos tranqüilos, e esses momentos são textos ( A guerra, diz uma das personagens de Brecht, não exclui a paz... A guerra tem seus momentos pacíficos... Entre duas escaramuças, pode-se esvaziar muito bem um canecão de cerveja... ). Entre dois assaltos de palavras, entre duas majestades de sistemas, o prazer do texto é sempre possível, não como uma distração, mas como uma passagem incongruente dissociada de uma outra linguagem, como o exercício de uma fisiologia diferente." p. 41

"... todo escritor de prazer tem suas ruborizações imbecis (Balzac, Zola, Flaubert, Proust; somente Mallarmé talvez é senhor de sua pele): no texto de prazer, as forças contrárias não se encontram mais em estado de recalcamento, mas de devir: nada é verdadeiramente antagonista, tudo é plural." p. 43 


BARTHES, Roland. O prazer do texto. Tradução: J. Guinsburg. São Paulo: editora perspectiva, 1987.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Bobók

Acho que o mais inteligente é quem ao menos uma vez por mês chama a si mesmo de imbecil — capacidade de que hoje não se ouve falar! Antes ao menos uma vez por ano o imbecil sabia sobre si mesmo que era imbecil, mas hoje, nem isso. E confundiram tanto a coisa que a gente não distingue o imbecil do inteligente.

DOSTOIÉVSKI, F. Bobók. Tradução de Paulo Bezerra. Editora 34, 2013.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

o sequestrado de veneza

"Nada acontece e nada dura, o nascimento é o espelho da morte; entre os dois há a terra arrasada, tudo é corroído pela má sorte"

SARTRE, Jean-Paul.O sequestrado de Veneza. Trad. Eloisa Araújo Ribeiro. São Paulo: Cosac Naify, 2005. p.25

O sequestrado de Veneza

"Só que em Veneza nada é simples. Pois não é uma cidade, não: é um arquipélago. Como poderíamos esquecer? De sua ilha, você olha a da frente com inveja: ali, há .. o quê? Uma solidão, uma pureza, um silêncio que não há, você juraria, do lado de cá. A verdadeira Veneza, onde quer que você esteja, está sempre em outra parte. Para mim, ao menos, é assim.  Normalmente, contento-me com o que tenho, mas, em Veneza sou presa de uma espécie de loucura invejosa, se não me contivesse estaria o tempo todo na ponte ou nas gôndolas, procurando desvairadamente a Veneza secreta da outra borda. Naturalmente, assim que a abordo, tudo desvanece, me volto: o mistério tranquilo formou-se novamente do outro lado. Há muito me resignei: Veneza está lá onde não estou."

SARTRE, Jean-Paul.Veneza de minha janela, In: O sequestrado de Veneza. Trad. Eloisa Araújo Ribeiro. São Paulo: Cosac Naify, 2005. p. 10

domingo, 1 de dezembro de 2013

"Estar com quem se ama e pensar em outra
coisa: é assim que tenho os meus melhores
pensamentos, que invento melhor o que e
necessário ao meu trabalho. O mesmo sucede com
o texto: ele produz em mim o melhor prazer se
consegue fazer-se ouvir indiretamente; se, lendoo,
sou arrastado a levantar muitas vezes a cabeça,
a ouvir outra coisa."

BARTHES, Roland. O prazer do texto. Tradução: J. Guinsburg. São Paulo: editora perspectiva, 1987. p. 34

domingo, 17 de novembro de 2013

Aprendendo a viver

DEUS



Mesmo para os descrentes há a pergunta duvidosa: e depois da morte? Mesmo para os descrentes há o instante de desespero: que Deus me ajude. Estou precisando. Precisando mais do que a força humana. E estou precisando de minha própria força. Sou forte mas também destrutiva. Autodestrutiva. E quem é autodestrutivo também destrói os outros. Estou ferindo muita gente. E Deus tem que vir a mim, já que eu não tenho ido a Ele. Venha, Deus, venha. Mesmo que eu não mereça, venha. Ou talvez os que menos merecem precisem mais. Só uma coisa a favor de mim eu posso dizer: nunca feri de propósito. E também me dói quando percebo que feri. Mas tantos defeitos tenho. Sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor: às vezes parecem farpas. Se tanto amor dentro de mim recebi e continuo inquieta e infeliz, é porque preciso que Deus venha. Venha antes que seja tarde demais.

Clarice Lispector, Aprendendo a Viver, p.205-206.
 

sábado, 2 de novembro de 2013

baladas

 
Estou viva.
Mas a morte é música.
A vida, dissonância.
Minha alegria é como
fim de outono porque
tive nas mãos ainda flores
mas flores estriadas de sangue.

Há cristais coloridos
nos teus olhos.
Vida nos teus dedos.

Estou morta.
Mas a morte é amor.

Não fiz o crime dos filhos
mas sonhei bonecos quebrados
sonhei bonecos chorando.

Alguns dias mais
e serei música.
Serás ao meu lado
a nota dissonante.

baladas

IX

[...]
teu pobre olhar
atrofiou minha vida inteira.

baladas

IV

Brotaram flores
nos meus pés
E o quotidiano
da minha vida
complicou-se

[...]

baladas

V

[...]

Só não morro de amargura
 porque nem mais morrer eu sei.

poemas malditos, gozosos e devotos.

Hilda Hilst, poemas malditos, gozosos e devotos.


XXI


[...]
 Sorri, meu Deus, por mim. De cedro
De mil abelhas tu és. Cavalo-d'água
Rondando o ego. Te amei sonâmbula
Esdrúxula, mas te amei inteira.



sexta-feira, 1 de novembro de 2013

poemas malditos, gozosos e devotos.

Hilda Hilst, poemas malditos, gozosos e devotos.

I "Pés burilados
Luz - alabastro
Mandou seu filho
Ser trespassado

Nos pés de carne
Nas mãos de carne
No peito vivo. De carne.

Pés burilados
 Fino formão
Dedo alongado agarrando homens.
Galáxias. Corpo de homem?
Não sei. Cuidado.

Vive do grito
De seus animais feridos
Vive do sangue
De poetas, de crianças

E do martírio de homens
Mulheres santas.

Temo que se aperceba
De umas misérias de mim

Ou de veladas grandezas
Soberbas
De alguns neurônios que tenho
Tão ricos, tão carmesins.
Tem esfaimada fome
Do teu todo que lateja.

Se tenho a pedir, não peço.
Contente, eu mais lhe agradeço
Quanto maior a distância.
E dó porisso uma dança,
vezenquando
Se faz nos meus ossos velhos.

Cantando e dançando, digo:
Meu Deus, por tamanho esquecimento
Desta que sou, fiapo, da terra um cisco
Beijo-te pés e artelhos.

Pés burilados
Luz-alabastro
Mandou seu filho
Ser trespassado

Nos pés de carne
Nas mãos de carne
No peito vivo. De carne

Cuidado."

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

el placer del texto

"Y, sin embargo, es el ritmo de lo que se lee y de do que no se lee aquello que construye el placer de los grandes relatos: se ha leído alguna vez a Proust, Balzac, La guerra y la paz, palabra por palavra? (El encanto de Proust: de una lectura a otra no se saltam los mismos pasajes.)"

barthes. el placer del texto. p.21
LECTORES

De aquel hidalgo de cetrina y seca
tez y de heroico afán se conjetura
que, en víspera perpetua de aventura,
no salió nunca de su biblioteca.
La crónica puntual que sus empeños
narra y sus tragicómicos desplantes
fue soñada por él, no por Cervantes,
y no es más que una crónica de sueños.
Tal es también mi suerte. Sé que hay algo
inmortal y esencial que he sepultado
en esa biblioteca del pasado
en que leí la historia del hidalgo.
Las lentas hojas vuelve un niño y grave
sueña con vagas cosas que no sabe.

Borges. el otro, el mismo.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O prazer do texto

Então o velho mito bíblico se inverte, a confusão das línguas não é mais uma punição, o sujeito chega à fruição pela coabitação das linguagens, que trabalham lado a lado: o texto de prazer é Babel feliz.

BARTHES, Roland. O prazer do texto. Tradução: J. Guinsburg. São Paulo: editora perspectiva, 1987. p.7

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

O livro por vir

Mas que um escritor tão puro quanto Virginia Woolf, que uma artista tão empenhada em criar uma obra que retivesse somente a transparência, a auréola luminosa e os leves contornos das coisas, tenha se sentido de certa maneira obrigada a voltar para junto de si, num diário tagarela em que o Eu se derrama e se consola, isso é significativo e perturbador. O diário aparece aqui como uma proteção contra a loucura, contra o perigo da escrita. Lá, em As ondas, ruge o risco de uma obra em que é preciso desaparecer. Lá, no espaço da obra, tudo se perde e talvez a própria obra se perca. O diário é a ancora que raspa o fundo do cotidiano e se agarra às asperezas da vaidade. Da mesma forma, Van Gogh tem suas cartas e um irmão para quem escrevê-las.

BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p.273

sábado, 5 de outubro de 2013

fragmentos de um discurso amoroso

 "ADORÁVEL: Não conseguindo nomear a especialidade de seu desejo pelo ser amado, o sujeito apaixonado chega a essa palavra um pouco tola: adorável!"

[p.13]

 AFIRMAÇÃO

"...o que me anima surda e obstinadamente não é tático: aceito e afirmo fora do verdadeiro e do falso, fora do êxito e do malogro; estou destituído de toda finalidade, vivo conforme o acaso (a prova é que as figuras do meu discurso me vêm como lances de dados). Confrontado com a aventura (aquilo que me ocorre), não saio nem vencedor, nem vencido: sou trágico.
(Dizem-me: esse gênero de amor não é viável. Mas como avaliar a viabilidade? Por que o que é viável é um Bem? Por que durar é melhor que inflamar?)"

  [p.16-17]


Um pontinho no nariz
ALTERAÇÃO 

"(O horror de estragar é ainda mais forte que a angústia de perder,.)
[p. 21]

AUSÊNCIA
"Essa ausência bem suportada, não é outra coisa senão o esquecimento.  Sou momentaneamente infiel. É a condição da minha sobrevivência, se não esquecesse, morreria. O enamorado que não esquece de vez em quando, morre por excesso, cansaço e tensão de memória (como Werther)."

[p. 28]

 A carta de amor
"Quando Werther (em missão junto ao Embaixador) escreve à Charlotte, sua carta segue o seguinte plano: 1. Que bom pensar em você! 2. Aqui estou eu num meio mundano e, sem você, eu me sinto muito sozinho; 3. Encontrei alguém (a senhorita de B...) que parece com você, e com quem posso falar de você; 4. Faço votos que possamos estar juntos.- Variações de uma mesma informação, como um tema musical: penso em você.
O que quer dizer ‘pensar em alguém?’ Quer dizer: esquecê-lo (sem esquecimento a vida é impossível) e despertar frequentemente desse esquecimento. Por associação, muitas coisas te trazem para meu discurso. ‘Pensar em você’ não quer dizer nada mais que essa metonímia. Por que, em si, esse pensamento é vazio: eu não te penso, simplesmente te faço voltar (na mesma proporção que te esqueço). É essa forma (esse ritmo) que chamo de ‘pensamento’: nada tenho para te dizer..."


[p.32] 

Elogio das lagrimas
"me faço chorar para provar que minha dor não é uma ilusão: as lágrimas são signos e não expressões."

[p.42] 


Eu te amo 

passada a primeira confissão, 'eu te amo' não quer dizer mais nada; apenas retoma de um modo enigmático, de tanto que ela parece vazia, a antiga mensagem (que talvez não tenha passado por essas palavras). Eu o repito fora de toda pertinência; ele sai da linguagem, divaga, onde?"

[p.97] 

Ternura
O gesto terno diz: me pede qualquer coisa que possa adormecer teu corpo, mas não esquece que te desejo um pouco, ligeiramente, sem querer possuir nada imediatamente 

[p.190]

BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Tradução de Hortência dos Santos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1981 

 

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

o livro por vir

Borges compreende que a perigosa dignidade da literatura não é a de nos fazer supor, no mundo, um grande autor absorto em suas mistificações sonhadoras, mas a de nos fazer sentir a aproximação de uma estranha potência, neutra e impessoal. Ele gosta que digam de Shakespeare: 'Ele se parecia com todos os homens, exceto no fato de se parecer com todos os homens.' Ele vê, em todos os autores, um só autor que é o único Carlyle, o único Whitman, que não é ninguém. Reconhece-se em George Moore e em Joyce - poderia dizer em Lautréamont e em Rimbaud -, capazes de incorporar em seus livros páginas e figuras que não lhe pertencem, pois o essencial é a literatura, não os indivíduos; e, na literatura, que ela seja impessoalmente, em cada livro, a unidade inesgotável de um único livro e a repetição fatigada de todos os livros."

  p. 139

o livro por vir

"Essa ligação com o erro, essa relação difícil de atingir, ainda mais difícil de manter, que se choca, naquele mesmo indivíduo que o erro mantém sobre seu fascínio, com uma dúvida, um desmentindo, essa paixão, essa atitude paradoxal concerne também ao romance, o mais feliz dos gêneros, do qual se disse sempre, porém, que chegou a seu termo. E isso era afirmado, não porque ele não produzia mais grandes obras, mas cada vez que grandes escritores escreviam grandes romances, unanimemente reconhecidos como livros literariamente consideráveis. É que, a cada vez, esses autores pareciam ter quebrado alguma coisa: eles não esgotavam o gênero como fez Homero com a epopeia, mas o alteravam com tal autoridade e um poder tão embaraçoso, às vezes tão embaraçado, que não parecia mais possível voltar à forma tradicional, nem ir mais longe no uso da forma aberrante, nem mesmo repeti-la. Isso foi dito na Inglaterra à respeito de Virginia Woolf ou de Joyce; na Alemanha, a propósito de Broch, de Musil e mesmo de A montanha mágica." [157]


"Diga-se o que disser, nem Proust nem Joyce fizeram nascer outros livros que lhes assemelhem; eles parecem não ter outro poder se não o de impedir os imitadores e desesperar as tentativas semelhantes. Eles fecham uma saída." [158]


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

o livro por vir

"Quando a palavra se torna profética, não é o futuro que é dado, é o presente que é retirado, e toda possibilidade de uma presença firme, estável e durável. Até mesmo a Cidade eterna e o Templo indestrutível são de repente - incrivelmente - destruídos. É novamente como um deserto, e a fala também é desértica, é a voz que precisa do deserto para gritar e que desperta sempre em nós o medo, a compreensão e a lembrança do deserto."

  p.114

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

toda poesia

O que quer dizer diz.
Não fica fazendo
o que, um dia, eu sempre fiz.
Não fica só querendo, querendo,
coisa que eu nunca quis.
O que quer dizer, diz.
Só se dizendo num outro
o que, um dia, se disse,
um dia, vai ser feliz.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

To Be Written on the Mirror in Whitewash


I live only here, between your eyes and you,
But I live in your world. What do I do?
--Collect no interest--otherwise what I can;
Above all I am not that staring man.


domingo, 22 de setembro de 2013

Instante

Instante

Deixai-me limpo
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio

( sophia de mello breyner andresen )

O livro por vir

"Quando lemos essas páginas, aprendemos o que não conseguimos saber: que o fato de pensar só pode ser perturbador; que aquilo que existe para ser pensado, é no pensamento, o que dele se afasta, e nele se exaure inesgotavelmente; que sofrer e pensar estão ligados de uma maneira secreta, pois se o sofrimento, quando se torna extremo, é tal que destrói o poder de sofrer, destruindo sempre à frente dele mesmo, no tempo, o tempo em que ele poderia ser retomado e acabado como sofrimento, o mesmo acontece, talvez, com o pensamento. Estranhas relações. Será que o extremo pensamento e o extremo sofrimento abrem o mesmo horizonte? Será que sofrer é, finalmente, pensar?"


BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p.56

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

a espuma dos dias

" - Esse nenúfar - disse Colin. - Onde será que ela foi pegar isso?
- Ela tá com um nenúfar? - perguntou Nicolas incrédulo.
- No pulmão direito - disse Colin. - No começo, o professor achava que não passava de alguma coisa animal. Mas é isso. Vimos na tela. Já está bem grande, mas, enfim, a gente deve conseguir superar."

  p.155-156.

a espuma dos dias

" - Não... - disse Colin. - Posso chegar a cem se o senhor aceitar ser pago em várias vezes. Será que o senhor se dá conta do que é dizer 'A Chloé morreu'?
- O senhor saber - disse o Religioso, estou acostumado, então isso não faz mais efeito em mim. Eu deveria lhe aconselhar a se dirigir a Deus, mas penso que, com uma soma tão fraca, talvez seja melhor não incomodá-lo.
- Oh! - disse Colin. - Não vou incomodá-lo. Não acredito que ele seja capaz de muita coisa, porque, veja só, a Chloé morreu."
 

p.241

sábado, 31 de agosto de 2013

a espuma dos dias

" - Pois então, perguntei se ela gostava de Jean-Sol Partre, ela me disse que colecionava as obras dele... Então eu disse: 'Eu também...'. E, cada vez que eu lhe dizia alguma coisa, ela respondia: 'Eu também...' e vice-versa... Então, no final, só para ter uma experiência existencialista, eu disse a ela: 'Amo muito a senhora', e ela disse: 'Oh!'
- A experiência deu errado.
- É. Mas, mesmo assim, ela não foi embora. Então eu disse a ela: 'Vou naquela direção', e ela disse: 'Eu não', e acrescentou: 'Vou por ali.'
- Extraordinário.
- Então eu disse: 'Eu também'. E, aonde quer que ela fosse, lá estava eu."
  

p.20-21

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

"o círculo antropológico", in: história da loucura: na idade clássica

"Isso não significa que a loucura seja a única linguagem comum à obra e ao mundo moderno (perigos do patético das maldições, perigo inverso e simétrico das psicanálises); mas isso significa que, através da loucura, uma obra que parece absorver-se no mundo, que parece revelar aí seu não-senso e aí transfigurar-se nos traços apenas do patológico, no fundo engaja nela o tempo do mundo, domina-o e o conduz; pela loucura que a interrompe, uma obra abre um vazio, um tempo de silêncio, uma questão sem resposta, provoca um dilaceramento sem reconciliação onde o mundo é obrigado a interrogar-se. O que existe de necessariamente profanador numa obra retorna através disso e, no tempo dessa obra que desmoronou no silêncio, o mundo sente sua culpabilidade."

p.583-584

quarta-feira, 31 de julho de 2013

rumo ao farol

E isso - pensou Lily pondo tinta verde no pincel-, esse hábito de inventar cenas sobre os outros é o que chamamos "conhecê-los", "pensar" neles, "gostar" deles! Não havia a menos verdade nisso; era uma total invenção; contudo, era desse modo que os conhecia. Continuou abrindo caminho em seu quadro, de volta ao passado"
 p.186

terça-feira, 30 de julho de 2013

rumo ao farol

"Os dois permaneceram ali, sorridentes. Ambos sentiram uma alegria em comum, exaltados pelas ondas em movimento; e então, pela corrida cortante e rápida de um barco que, tendo traçado uma curva na baía, parou, estremeceu, deixou tombar a vela, com um instinto natural para completar o quadro, após esse rápido movimento, ambos olharam para as dunas distantes e, em vez de alegria, uma certa tristeza abateu-se sobre eles - em parte porque tudo estava completo, em parte porque paisagens distantes parecem ultrapassar de um bilhão de anos (pensou Lily) aquele que as observa, e estar em comunhão com um céu que contempla uma terra em completo descanso."

p. 24

domingo, 21 de julho de 2013

nadja

"Cada vez que estive lá, senti que me abandonava pouco a pouco o desejo de sair, precisando argumentar comigo mesmo para escapar desse enlace tão suave, tão agradável e insistente demais e, em última instância, aflitivo."

nadja

"Porque a produção de imagens de sonho depende sempre pelo menos desse duplo jogo de espelhos, nela encontramos a indicação do papel muito especial, sem dúvida eminentemente revelador, no mais alto grau ‘supradeterminante’, no sentido freudiano, que certas impressões muito fortes são chamadas a desempenhar, nada contamináveis pela moralidade, verdadeiramente percebidas ‘acima do bem e do mal’ no sonho e, em seguida, no que lhes opomos muito sumariamente sob o nome de realidade."

  p.55

domingo, 23 de junho de 2013

toda poesia

dura o diamante
dentro da pedra pura.
de agora em diante
só o durante dura.

p.364

terça-feira, 18 de junho de 2013

mrs. dalloway

"Bem, diverti-me; sempre foi alguma coisa, pensou, olhando para os oscilantes vasos de pálidos gerânios. Um prazer desfeito em pó, pois era meio inventado, como muito bem o sabia; inventada, aquela aventura com a moça; fabricada, como se fabrica a melhor parte da vida, pensou - como a gente se fabrica a si mesmo; a vida; como se inventa uma deliciosa diversão e qualquer coisa mais. Era esquisito, e inteiramente verdade, tudo o que não se podia compartilhar... esvaía-se em pó." p.55-56.

sábado, 15 de junho de 2013

mrs. dalloway

“E Clarrisa inclinou-se, tomou-lhe a mão, atraiu-o para si, beijou-o – sentiu realmente a face dele contra a sua, antes que ela pudesse dominar no seu peito um tumulto de plumas argentadas, como ervas do pampa a um vento tropical, que, ao aplacar-se, deixou-a ali, segurando-lhe a mão, batendo-lhe no joelho e sentindo-se, quando tornara a sentar-se, extraordinariamente à vontade com ele e de coração leve; e instantaneamente pensou: se eu tivesse casado com Peter, teria essa alegria toda a vida.

Mas tudo estava acabado para ela. O lençol estendido e a cama estreita. Tinha subido sozinha à torre e deixara-os colhendo amora ao sol. A porta fechara-se, e lá em cima, entre a poeira do reboco caído e restos de ninhos de pássaros, de que distância se olhava e como os sonhos chegavam amortecidos! (aquela vez em Leith Hill, lembrou-se)e chamou um pensamento: ‘Richard! Richard!’, como uma pessoa adormecida que se sobressalta, e estende a mão no escuro, em busca de um apoio. Almoçando com Lady Bruton, lembrou-se. Deixou-me; estou sozinha para sempre, pensou ela, enlaçando as mãos no joelho.

Peter Walsh erguera-se e fora até a janela, onde permanecia de costas para Clarissa, passando pela face um lenço estampado. Impressionante, severo, desolado, parecia ele, com as mãos magras omoplatas a soergue-lhe o casaco; assoava o nariz. Leva-me contigo! Pensou Clarissa num impulso, como se ele fosse partir imediatamente pra uma longa viagem; e, no instante seguinte,  foi como se tivesse passado os cinco atos de uma peça excitante e movimentada, nos quais ela tivesse vivido toda uma vida e fugido, vivido com Peter e tudo agora estivesse terminado.”

p.48-49

mrs. Dalloway



"O estranho, quando recordava era a pureza, a integridade de seus sentimentos para com Sally. Não era como o que se sente por um homem. Era completamente desinteressado, e, de resto, tinha uma qualidade que só pode existir entre mulheres, entre mulheres recém-saídas da adolescência. Era um sentimento protetor por sua parte;provinha da impressão de estarem coligadas, o pressentimento de que alguma coisa fatalmente as separaria... Mas o seu encanto era irresistível, pelo menos pra ela, tanto que se revia parada em seu quarto do alto da casa, com o jarro de água quente nas mãos e dizendo em voz alta: ‘Ela está debaixo desse mesmo teto... ela está debaixo desse mesmo teto.’



Não, essas palavras agora não significavam exatamente nada para ela. Nem sequer lhe despertavam um eco da antiga emoção.  Mas poderia recordar ainda que sentira um arrepio de excitação e que começara a pentear os cabelos num espécie de êxtase ( e agora lhe vinha voltando os velhos sentimentos enquanto retirava os grampos, colocava-os no toucador e começava  a pentear-se), enquanto as gralhas se alçavam e abatiam então, na luz rosada co crepúsculo, e ela se vestira e descera as escadas, sentindo, ao cruzar o vestíbulo: ‘Se tivesse de morrer agora, nunca teria sido mais feliz.’ Esse o sentimento – o sentimento de Otelo, e sentia-o, estava certa, tão fortemente como Shakespeare pretendia que Otelo o sentisse, tudo porque baixava, vestida de branco, para jantar com Sally Seton!”


p. 36-37.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Você esqueceu
isso acontece
só os mortos
não esquecem
já estou daquele jeito
que não tem mais conserto
ou levo você pra cama 
ou desperto.

. alice ruiz

segunda-feira, 13 de maio de 2013

as ondas

"Entre o tormentos e devastações da vida, existe este - nossos amigos não são capazes de concluir suas histórias."
 

 p. 43

la outra muerte

" En cuanto a mí, entiendo no recorrer un peligro análogo. He adivinado y registrado un proceso no accesible a los hombres, una suerte de escándalo de la razón; pero algunas circunstancias mitigan ese privilegio temible. Por lo pronto, no estoy seguro de haber escrito siempre la verdad. Sospecho que en mi relato hay falsos recuerdos. Sospecho que Pedro Damián (si existió) no se llamó Pedro Damián, y que yo lo recuerdo bajo ese nombre para creer algún día que su historia me fue sugerida por los argumentos de Pier Damiani. Algo parecido acontece con el poema que mencione en el primer párrafo y que versa sobre la irrevocabilidad del pasado. Hacia 1951 creeré haber fabricado un cuento fantástico y habré historiado un hecho real; también el inocente Virgilio, hará dos mil años, creyó anunciar el nacimiento de un hombre y vaticinaba el de Dios."

In: el aleph

as ondas

"Ah, Deus, fazei com que passem. Fazei com que deponham sua borboletas sobre um lenço no chão. Fazei com que contem sua borboletas- tartaruga, suas almirantes vermelhas, e as brancas. Deixai-me, porém, permanecer invisível."

  p. 18

deutsches requiem

"Ninguém pode ser, digo, ninguém pode provar um copo d'água ou partir uma fatia de pão, sem justificativa. Para cada homem essa justificativa é diferente; eu esperava a guerra inexorável que provaria nossa fé."

  in: o aleph,  p.74.

quinta-feira, 14 de março de 2013

O Fazedor


“Um homem se propõe a tarefa de esboçar o mundo.
Ao longo dos anos povoa um espaço com imagens de províncias,
de reinos, de montanhas, de baías, de naves (...) e de pessoas.
Pouco antes de morrer, descobre que esse paciente labirinto
de linhas traça a imagem de seu rosto”.

O retrato de Dorian Gray

Um livro não é, de modo algul, moral ou imoral. Os livros são bem ou mal escritos. Eis tudo. A aversão do século XIX ao Realismo é a cólera de Calibã por ver o seu rosto num espelho. A aversão do século XIX ao Romantiso é a cólera de Calibã por não ver o seu próprio rosto num espelho.

O retrato de Dorian Gray


 "... mas a beleza, a verdadeira beleza acaba onde começa a expressão intelectual. A intelectualidade é em sim mesma um mdoe de exagero e destrói a harmonia de qualquer rosto"

O retrato de Dorian Gray

" - Harry - disse Basílio Hallward, fitando-o nos olhos, - todo retrato pintado com sentimento é um retrato do artista, não do modelo. O modelo é simplesmente o acidente, a ocasião. Não é ele que o pintor revela; quem se revela sobre a tela colorida é o próprio pintor. A razão pela qual não exibirei esse retrato está no temor de mostrar nele o segredo da minha própria alma."

terça-feira, 5 de março de 2013

Avenida Niévski


Permaneceu deitado na cama até o meio-dia, desejando adormecer, mas ela não aparecia. Se ao menos por um instante ela revelasse seus maravilhosos traços, se ao menos por um minuto ressoasse o seu leve caminhar, se ao menos, num relance, a sua mão desnuda, reluzente como a neve de além das nuvens, surgisse à sua frente.

p.51

Avenida Niévski


Mente a qualquer hora essa Avenida Niévski, mas acima de tudo quando a noite cai sobre ela, na forma de uma massa compacta, destacando as paredes brancas e cor-de-palha das casas; então, a cidade inteira se transforma em estrondo e fulgor, miríades de carruagens projetam-se nas pontes e os boleeiros berram e pulam sobre os cavalos, quando o próprio demônio acende os lampiões apenas para tudo revelar sob uma falsa aparência.

p.91

Avenida Niévski


“Nosso mundo está organizado de uma forma surpreendente! – pensava eu enquanto caminhava anteontem, pela Avenida Niévski, rememorando esses dois episódios. – De que maneira estranha, incompreensível, joga conosco o nosso destino! Será que em algum momento recebemos aquilo que desejamos? Será que logramos aquilo para o que as nossas forças aparentemente foram feitas sob medida? Tudo acontece ao contrário. Àquele o destino proporcionou belos cavalos e ele passeia neles com indiferença, sem notar, em absoluto a sua beleza, - enquanto um outro tem uma paixão inflamada por eqüinos, mas caminha a pé e contenta-se apenas em estalar a língua quando por ele passa alguém conduzindo um trotão. Aquele possui um excelente cozinheiro mas, infelizmente, uma boca tão pequena que não permite, de maneira alguma, a passagem de mais de dois pedacinhos; um outro possui a boca do tamanho do arco do Estado- Maior mas, aí, deve satisfazer-se com qualquer almoço alemão, de batatas. De que estranha maneira brinca conosco o nosso destino!”

p.89

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O vermelho e o negro


" A Sra. de Rênal pensava nas paixões como nós pensamos na loteria: engodo certo e felicidade buscada por loucos."

 p.66

O vermelho e o negro


"Mal entramos na cidade e nos sentimos atordoados pelo estardalhaço de uma máquina barulhenta e de aparência terrível. Vinte pesados martelos, ao cair com um estrondo que estremece o pavimento, são erguidos por uma roda que a água da torrente movimenta. Cada um desses martelos fabrica, a cada dia, não sei quantos milhares de pregos. São mocinhas viçosas e bonitas que apresentam aos golpes desses martelos enormes os pequenos pedaços de ferro rapidamente transformados em pregos. Esse trabalho, de aparência tão rude, é dos que mais espantam o viajante que penetra pela primeira vez nas montanhas da fronteira entra a França e a Helvécia."

 p.20

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Tudo que é sólido desmancha no ar.


" [...] esse horror tipicamente moderno foi explorado pela primeira vez por Dostoievski na sua parábola do Grande Inquisidor (Os Irmãos Karamazov, 1881). Diz o Inquisidor: 'O homem prefere a paz e até mesmo a morte à liberdade de discernir o bem e o mal. Não há nada de mais sedutor para o homem do que o livre-arbítrio, mas também nada de mais doloroso.' "

p.17-18

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A divina Comédia


" E ele: 'Volta à tua velha conhecença
na qual se ensina que o ser mais perfeito
mais sente seja o bem e seja a ofensa'"

. Segundo a doutrina aristotélica adotada por Dante, quanto mais perfeitos os indivíduos, mais intensamente eles sentiriam tanto o prazer como o sofrimento .

 p.59

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Inferno, A Divina Comédia,


"Ó alma generosa mantuana,
de quem a fama ainda no mundo dura,
e durará quanto a memória humana,

o amigo meu, mas não de sua ventura,
tão na deserta encosta está impedido,
que, de pavor, sua volta já procura;

e temo que se encontre tão perdido,
que eu tarde esteja a o socorrer levada,
pelo que dele foi no Céu ouvido.

Vai então, e co'a sua fala ilustrada
e o que mais de salvá-lo for capaz,
ajuda-o para que eu seja confortada.

Eu sou Beatriz, que peço que tu vás,
venho de aonde retornar almejo,
amor moveu-me, que falar me faz."

 p.33