SÓ PARA VERSOS QUE LI...
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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

"Pedras dentro das barcas
Favos trincados
Embaçando as águas
Ai que cuidados 
Que fulgor de dentes
Para criar um espaço
De ausências no meu presente.
E envoltório de malhas
E escuros rosários
Feitos de sal e aço
Ai que cuidados
Para prender quem vive
Dessas cadeias
E morre
Só de pensar em não tê-las."
Hilda Hilst, da poesia, p. 378.

sábado, 2 de novembro de 2013

baladas

 
Estou viva.
Mas a morte é música.
A vida, dissonância.
Minha alegria é como
fim de outono porque
tive nas mãos ainda flores
mas flores estriadas de sangue.

Há cristais coloridos
nos teus olhos.
Vida nos teus dedos.

Estou morta.
Mas a morte é amor.

Não fiz o crime dos filhos
mas sonhei bonecos quebrados
sonhei bonecos chorando.

Alguns dias mais
e serei música.
Serás ao meu lado
a nota dissonante.

baladas

IX

[...]
teu pobre olhar
atrofiou minha vida inteira.

baladas

IV

Brotaram flores
nos meus pés
E o quotidiano
da minha vida
complicou-se

[...]

baladas

V

[...]

Só não morro de amargura
 porque nem mais morrer eu sei.

poemas malditos, gozosos e devotos.

Hilda Hilst, poemas malditos, gozosos e devotos.


XXI


[...]
 Sorri, meu Deus, por mim. De cedro
De mil abelhas tu és. Cavalo-d'água
Rondando o ego. Te amei sonâmbula
Esdrúxula, mas te amei inteira.



sexta-feira, 1 de novembro de 2013

poemas malditos, gozosos e devotos.

Hilda Hilst, poemas malditos, gozosos e devotos.

I "Pés burilados
Luz - alabastro
Mandou seu filho
Ser trespassado

Nos pés de carne
Nas mãos de carne
No peito vivo. De carne.

Pés burilados
 Fino formão
Dedo alongado agarrando homens.
Galáxias. Corpo de homem?
Não sei. Cuidado.

Vive do grito
De seus animais feridos
Vive do sangue
De poetas, de crianças

E do martírio de homens
Mulheres santas.

Temo que se aperceba
De umas misérias de mim

Ou de veladas grandezas
Soberbas
De alguns neurônios que tenho
Tão ricos, tão carmesins.
Tem esfaimada fome
Do teu todo que lateja.

Se tenho a pedir, não peço.
Contente, eu mais lhe agradeço
Quanto maior a distância.
E dó porisso uma dança,
vezenquando
Se faz nos meus ossos velhos.

Cantando e dançando, digo:
Meu Deus, por tamanho esquecimento
Desta que sou, fiapo, da terra um cisco
Beijo-te pés e artelhos.

Pés burilados
Luz-alabastro
Mandou seu filho
Ser trespassado

Nos pés de carne
Nas mãos de carne
No peito vivo. De carne

Cuidado."