Mas que um escritor tão puro quanto Virginia Woolf, que uma artista
tão empenhada em criar uma obra que retivesse somente a transparência, a
auréola luminosa e os leves contornos das coisas, tenha se sentido de
certa maneira obrigada a voltar para junto de si, num diário tagarela em
que o Eu se derrama e se consola, isso é significativo e perturbador. O
diário aparece aqui como uma proteção
contra a loucura, contra o perigo da escrita. Lá, em As ondas, ruge o
risco de uma obra em que é preciso desaparecer. Lá, no espaço da obra,
tudo se perde e talvez a própria obra se perca. O diário é a ancora que
raspa o fundo do cotidiano e se agarra às asperezas da vaidade. Da mesma
forma, Van Gogh tem suas cartas e um irmão para quem escrevê-las.
BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p.273
SÓ PARA VERSOS QUE LI...
Mostrando postagens com marcador Maurice Blanchot. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Maurice Blanchot. Mostrar todas as postagens
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
o livro por vir
Borges
compreende que a perigosa dignidade da literatura não é a de nos fazer
supor, no mundo, um grande autor absorto em suas mistificações
sonhadoras, mas a de nos fazer sentir a aproximação de uma estranha
potência, neutra e impessoal. Ele gosta que digam de Shakespeare: 'Ele
se parecia com todos os homens, exceto no fato de se parecer com todos
os homens.' Ele vê, em todos os autores, um só autor
que é o único Carlyle, o único Whitman, que não é ninguém. Reconhece-se
em George Moore e em Joyce - poderia dizer em Lautréamont e em Rimbaud
-, capazes de incorporar em seus livros páginas e figuras que não lhe
pertencem, pois o essencial é a literatura, não os indivíduos; e, na
literatura, que ela seja impessoalmente, em cada livro, a unidade
inesgotável de um único livro e a repetição fatigada de todos os
livros."
p. 139
p. 139
o livro por vir
"Essa
ligação com o erro, essa relação difícil de atingir, ainda mais difícil
de manter, que se choca, naquele mesmo indivíduo que o erro mantém
sobre seu fascínio, com uma dúvida, um desmentindo, essa paixão, essa
atitude paradoxal concerne também ao romance, o mais feliz dos gêneros,
do qual se disse sempre, porém, que chegou a seu termo. E isso era
afirmado, não porque ele não produzia
mais grandes obras, mas cada vez que grandes escritores escreviam
grandes romances, unanimemente reconhecidos como livros literariamente
consideráveis. É que, a cada vez, esses autores pareciam ter quebrado
alguma coisa: eles não esgotavam o gênero como fez Homero com a epopeia,
mas o alteravam com tal autoridade e um poder tão embaraçoso, às vezes
tão embaraçado, que não parecia mais possível voltar à forma
tradicional, nem ir mais longe no uso da forma aberrante, nem mesmo
repeti-la. Isso foi dito na Inglaterra à respeito de Virginia Woolf ou
de Joyce; na Alemanha, a propósito de Broch, de Musil e mesmo de A
montanha mágica." [157]
"Diga-se o que disser, nem Proust nem Joyce fizeram nascer outros livros que lhes assemelhem; eles parecem não ter outro poder se não o de impedir os imitadores e desesperar as tentativas semelhantes. Eles fecham uma saída." [158]
"Diga-se o que disser, nem Proust nem Joyce fizeram nascer outros livros que lhes assemelhem; eles parecem não ter outro poder se não o de impedir os imitadores e desesperar as tentativas semelhantes. Eles fecham uma saída." [158]
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
o livro por vir
"Quando
a palavra se torna profética, não é o futuro que é dado, é o presente
que é retirado, e toda possibilidade de uma presença firme, estável e
durável. Até mesmo a Cidade eterna e o Templo indestrutível são de
repente - incrivelmente - destruídos. É novamente como um deserto, e a
fala também é desértica, é a voz que precisa do deserto para gritar e
que desperta sempre em nós o medo, a compreensão e a lembrança do
deserto."
p.114
p.114
domingo, 22 de setembro de 2013
O livro por vir
"Quando lemos essas páginas, aprendemos o que não conseguimos saber: que o fato de pensar só pode ser perturbador; que aquilo que existe para ser pensado, é no pensamento, o que dele se afasta, e nele se exaure inesgotavelmente; que sofrer e pensar estão ligados de uma maneira secreta, pois se o sofrimento, quando se torna extremo, é tal que destrói o poder de sofrer, destruindo sempre à frente dele mesmo, no tempo, o tempo em que ele poderia ser retomado e acabado como sofrimento, o mesmo acontece, talvez, com o pensamento. Estranhas relações. Será que o extremo pensamento e o extremo sofrimento abrem o mesmo horizonte? Será que sofrer é, finalmente, pensar?"
BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p.56
BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p.56
Assinar:
Postagens (Atom)