SÓ PARA VERSOS QUE LI...
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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

"E você... disse ela, examinando-o. Era como se procurasse juntar duas versões diversas dele; o do telefone talvez e aquele, ali presente, de carne e osso. Ou haveria outras mais? Isso de conhecer as pessoas pela metade; de ser conhecido pela metade; essa sensação do olho pousado na carne como uma mosca que se move pesada... - como era incômodo, pensou; mas inevitável também depois de todos aqueles anos."
virginia woolf, os anos, p. 371-372

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

" Quando ela olhou pela janela, na carruagem em que voltava do funeral, sentiu, primeiro, como era estranho e, depois, como era indecoroso que as pessoas continuassem assobiando, e todas aparentemente indiferentes."
v. woolf, memórias de uma romancista.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Contos completos

"Mas quando o eu fala com o eu, quem é que fala? - a alma sepulta, o espírito empurrado para dentro, cada vez mais para dentro da catacumba central; o eu que tomou véus e abandonou o mundo - um covarde talvez, contudo belo de algum modo, quando em seu desassossego perpassa de lampião na mão, a subir e descer nos corredores escuros. 'Não consigo mais suportar isso', diz o espírito dela'."
WOOLF, Virginia. Um romance não escrito. In: Contos Completos. São Paulo: Cosac Naify, 2005. p. 159

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O fascínio do poço

"Pois embora haja momentos em que uma concha se mostra a ponto de surpreender todos nós à luz do dia, com nossos pensamentos e anseios e indagações e confissões e desilusões, de algum modo a concha deixa alguma coisa escapar e uma vez mais nós escorremos de volta pela beira do poço."
WOOLF, Virginia. O fascínio do poço In: Contos Completos. São Paulo: Cosac Naify, 2005. p. 325

quarta-feira, 31 de julho de 2013

rumo ao farol

E isso - pensou Lily pondo tinta verde no pincel-, esse hábito de inventar cenas sobre os outros é o que chamamos "conhecê-los", "pensar" neles, "gostar" deles! Não havia a menos verdade nisso; era uma total invenção; contudo, era desse modo que os conhecia. Continuou abrindo caminho em seu quadro, de volta ao passado"
 p.186

terça-feira, 30 de julho de 2013

rumo ao farol

"Os dois permaneceram ali, sorridentes. Ambos sentiram uma alegria em comum, exaltados pelas ondas em movimento; e então, pela corrida cortante e rápida de um barco que, tendo traçado uma curva na baía, parou, estremeceu, deixou tombar a vela, com um instinto natural para completar o quadro, após esse rápido movimento, ambos olharam para as dunas distantes e, em vez de alegria, uma certa tristeza abateu-se sobre eles - em parte porque tudo estava completo, em parte porque paisagens distantes parecem ultrapassar de um bilhão de anos (pensou Lily) aquele que as observa, e estar em comunhão com um céu que contempla uma terra em completo descanso."

p. 24

terça-feira, 18 de junho de 2013

mrs. dalloway

"Bem, diverti-me; sempre foi alguma coisa, pensou, olhando para os oscilantes vasos de pálidos gerânios. Um prazer desfeito em pó, pois era meio inventado, como muito bem o sabia; inventada, aquela aventura com a moça; fabricada, como se fabrica a melhor parte da vida, pensou - como a gente se fabrica a si mesmo; a vida; como se inventa uma deliciosa diversão e qualquer coisa mais. Era esquisito, e inteiramente verdade, tudo o que não se podia compartilhar... esvaía-se em pó." p.55-56.

sábado, 15 de junho de 2013

mrs. dalloway

“E Clarrisa inclinou-se, tomou-lhe a mão, atraiu-o para si, beijou-o – sentiu realmente a face dele contra a sua, antes que ela pudesse dominar no seu peito um tumulto de plumas argentadas, como ervas do pampa a um vento tropical, que, ao aplacar-se, deixou-a ali, segurando-lhe a mão, batendo-lhe no joelho e sentindo-se, quando tornara a sentar-se, extraordinariamente à vontade com ele e de coração leve; e instantaneamente pensou: se eu tivesse casado com Peter, teria essa alegria toda a vida.

Mas tudo estava acabado para ela. O lençol estendido e a cama estreita. Tinha subido sozinha à torre e deixara-os colhendo amora ao sol. A porta fechara-se, e lá em cima, entre a poeira do reboco caído e restos de ninhos de pássaros, de que distância se olhava e como os sonhos chegavam amortecidos! (aquela vez em Leith Hill, lembrou-se)e chamou um pensamento: ‘Richard! Richard!’, como uma pessoa adormecida que se sobressalta, e estende a mão no escuro, em busca de um apoio. Almoçando com Lady Bruton, lembrou-se. Deixou-me; estou sozinha para sempre, pensou ela, enlaçando as mãos no joelho.

Peter Walsh erguera-se e fora até a janela, onde permanecia de costas para Clarissa, passando pela face um lenço estampado. Impressionante, severo, desolado, parecia ele, com as mãos magras omoplatas a soergue-lhe o casaco; assoava o nariz. Leva-me contigo! Pensou Clarissa num impulso, como se ele fosse partir imediatamente pra uma longa viagem; e, no instante seguinte,  foi como se tivesse passado os cinco atos de uma peça excitante e movimentada, nos quais ela tivesse vivido toda uma vida e fugido, vivido com Peter e tudo agora estivesse terminado.”

p.48-49

mrs. Dalloway



"O estranho, quando recordava era a pureza, a integridade de seus sentimentos para com Sally. Não era como o que se sente por um homem. Era completamente desinteressado, e, de resto, tinha uma qualidade que só pode existir entre mulheres, entre mulheres recém-saídas da adolescência. Era um sentimento protetor por sua parte;provinha da impressão de estarem coligadas, o pressentimento de que alguma coisa fatalmente as separaria... Mas o seu encanto era irresistível, pelo menos pra ela, tanto que se revia parada em seu quarto do alto da casa, com o jarro de água quente nas mãos e dizendo em voz alta: ‘Ela está debaixo desse mesmo teto... ela está debaixo desse mesmo teto.’



Não, essas palavras agora não significavam exatamente nada para ela. Nem sequer lhe despertavam um eco da antiga emoção.  Mas poderia recordar ainda que sentira um arrepio de excitação e que começara a pentear os cabelos num espécie de êxtase ( e agora lhe vinha voltando os velhos sentimentos enquanto retirava os grampos, colocava-os no toucador e começava  a pentear-se), enquanto as gralhas se alçavam e abatiam então, na luz rosada co crepúsculo, e ela se vestira e descera as escadas, sentindo, ao cruzar o vestíbulo: ‘Se tivesse de morrer agora, nunca teria sido mais feliz.’ Esse o sentimento – o sentimento de Otelo, e sentia-o, estava certa, tão fortemente como Shakespeare pretendia que Otelo o sentisse, tudo porque baixava, vestida de branco, para jantar com Sally Seton!”


p. 36-37.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

as ondas

"Entre o tormentos e devastações da vida, existe este - nossos amigos não são capazes de concluir suas histórias."
 

 p. 43

as ondas

"Ah, Deus, fazei com que passem. Fazei com que deponham sua borboletas sobre um lenço no chão. Fazei com que contem sua borboletas- tartaruga, suas almirantes vermelhas, e as brancas. Deixai-me, porém, permanecer invisível."

  p. 18

domingo, 18 de novembro de 2012

ao farol

Mas, já entendida, Lily sentiu que alguma coisa estava faltando; o Sr. Bankes sentiu que alguma coisa estava faltando; enrolando-se no xale, a Sra. Ramsay sentiu que alguma coisa estava faltando. E todos, inclinando-se para ouvir, pensaram: “Queira Deus não se exponha o interior da minha mente”, pois que cada um deles pensava: “Os outros o estão sentindo. Sentem-se ultrajados e indignados com o governo em relação aos pescadores, enquanto eu não sinto absolutamente nada”.

Virginia Woolf. Ao Farol, tradução de Luiza Lobo, Ediouro, p. 96.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

a viagem


Meio adormecidos e murmurando palavras fragmentadas, pararam no ângulo feito pela proa do barco, que deslizava rio abaixo. Um sino tocou na ponte de comando e ouviram o chapinhar da água que se afastava em ondinhas dos dois lados; um pássaro assustado no sono grasnou, voou para a árvore mais próxima, e tudo ficou calado de novo. A escuridão derramava-se profusamente e os deixava quase sem sentimento de vida, a não ser por estarem parados ali, juntos, na escuridão.

Virginia Woolf. A Viagem, tradução de Lya Luft, Novo Século, p. 429/430

a viagem


(…) Sentou-se na terra, agarrando os dois joelhos juntos, e olhou em frente sem ver. Por algum tempo observou uma grande borboleta amarela que abria e fechava suas asas muito lentamente sobre uma pedra chata.
— O que é estar apaixonada? — perguntou depois de um longo silêncio; cada palavra ao surgir lançava-se num mar desconhecido. Hipnotizada pelas asas da borboleta, e aterrorizada pela descoberta de uma terrível possibilidade na vida, ela ficou sentada mais algum tempo. Quando a borboleta voou, afastando-se, ela se ergueu, e com seus dois livros debaixo do braço voltou para casa novamente, como um soldado para uma batalha.

Virginia Woolf, A Viagem, tradução de Lya Luft. Editora Novo Século. p. 264

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

orlando

” O verde na natureza é uma coisa, o verde na literatura é outra. A natureza e as letras parecem ter um antipatia natural; basta juntá-las para que se dilacerem mutuamente. A sombra do verde que Orlando via agora estragou sua rima e quebrou seu metro. Além do mais, a natureza tem suas próprias artimanhas. Basta olhar pela janela as abelhas entre as flores, um cachrorro bocejando, o pôr do sol, basta pensar ‘quantos crepúsculos ainda verei?’, etc. etc. (o pensamento é conhecido demais para valer a pena escrevê-lo) e deixa-se cair a pena, sai-se da sala e tropeça numa arca pintada. Pois Orlando era um pouco desajeitado”

Orlando
Virginia Woolf

orlando

“(Pois, embora não devamos interromper em nenhum momento a narrativa, temos que anotar aqui, às pressas, que todas as suas imagens naquela época eram extremamente simples, para combinarem com seus sentidos, e eram, em sua maioria, extraídas de coisas que tinha gostado em pequeno. Mas, se os sentidos eram simples, eram, ao mesmo tempo, extremamente fortes. Parar e procurar a razão das coisas era impossível.)”

Orlando, p.29
Virginia Woolf

orlando

“La beauté des dames de la cour d’Anglaterre me met dans la ravissement. On ne peut voir une dame plus gracieuse que votre reine, ni une coiffure plus belle que la sienne.”

Orlando, p.31
Virginia Woolf

orlando

“Ruína e morte, pensou, cobrem tudo. A vida do homem termina no túmulo.”

Orlando, p.43
Virginia Woolf

orlando

“Terá o dedo da morte que ser colocado no tumulto da vida, de tempos em tempos, para que não sejamos dilacerados? Será que somos feitos de tal forma que devemos receber a morte em pequenas doses diariamente, ou não podemos continuar com o direito à vida? E então, que estranhos poderes são esses que penetram nossos caminhos mais secretos e mudam nossos bens mais preciosos apesar da nossa vontade? Teria Orlando, abatido pelo limite de seu sofrimento, morrido por uma semana e ressuscitado depois? E, se assim foi de que natureza é a morte e de que natureza é a vida? Depois de esperamos mais de uma hora por uma resposta a essas questões, e não tendo chegado nenhuma, vamos continuar com a narrativa.”

Orlando, p. 51 Virginia Woolf

orlando

“Depois, de repente, Orlando caía em uma de suas expressões de melancolia; a visão da velha mancando sobre o gelo podia ser a causa disso, ou não haver nada; atirava-se de rosto para baixo no gelo, olhava as águas congeladas e pensava na morte. Pois o filósofo tem razão em dizer que nada mais espesso do que a lâmina de uma faca separa a felicidade da melancolia, e prossegue opinando que são gêmeas; e daí chega à conclusão de que todos os sentimentos extremos são aparentados da loucura… “


Orlando, p.35
Virginia Woolf