SÓ PARA VERSOS QUE LI...

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

" Quando ela olhou pela janela, na carruagem em que voltava do funeral, sentiu, primeiro, como era estranho e, depois, como era indecoroso que as pessoas continuassem assobiando, e todas aparentemente indiferentes."
v. woolf, memórias de uma romancista.

domingo, 16 de agosto de 2015

El sueño de Chuang Tzu

Chuang Tzu soñó que era una mariposa y no sabía al despertar si era un hombre que había soñado ser una mariposa o una mariposa que ahora soñaba ser un hombre

Herbert Allen Giles,
Chuang Tzu (1889)


In: BORGES, J L. CASARES, A B. Cuentos breves y extraordinarios

sábado, 15 de agosto de 2015

El redento secreto
"Es sabido que todos los ogros viven en Ceylán y que todas sus vidas están en un solo limón. Un ciego corta el limón con un cuchillo y mueren todos los ogros."
del Indian Antiquary, I (1872)
in: BORGES, J L. CASARES, A B. Cuentos breves y extraordinarios.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

"El velamiento, la muerte, o la ausencia de una divinidad radicalmente trascedente, o de fundamentos absolutos, convierte la existencia en una escena traumática en la cual la angustia amenaza teñir, y tal vez confundir, todas las relaciones. En lugar de ser una interacción tensa y a veces paradójica de proximidad y distancia, solidaridad y crítica, confianza y recelo, la relación de cada cual con cada otro puede calcar el modelo de angustiosa 'relación sin relación' con una divindad radicalmente trascendente (reconocida ahora, tal vez, como ausente) que es enteramente otra"

LA CAPRA, D. Escribir la historia, escribir el trauma. p. 47-48

sábado, 3 de maio de 2014

Paris é uma festa

E a vida me tinha parecido tão simples naquela manhã, quando despertei, e encontrei a falsa primavera, ouvi a gaita de foles do homem das cabras e saí para comprar o jornal de corridas.
Mas Paris era uma cidade muito antiga, nós éramos jovens e nada ali era simples, nem mesmo a pobreza, nem o dinheiro súbito, nem o luar, nem o bem e o mal, nem a respiração de alguém que deitada ao nosso lado dormisse ao luar.

, E. Paris é uma festa. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013. p. 73

segunda-feira, 3 de março de 2014

Aula

"Entiendo por literatura no un cuerpo o una serie de obras, ni siquiera un sector de comercio o de enseñanza, sino la grafía compleja de las marcas de una práctica, la práctica de escribir. Veo entonces en ella esencialmente al texto, es decir, al tejido de significantes que constituye la obra, puesto que el texto es afloramiento mismo de la lengua, y que es dentro de la lengua donde la lengua debe ser combatida, descarriada: no por el mensaje del cual es instrumento, sino por el juego de las palabras cuyo teatro constituye. Puedo entonces decir indiferentemente: literatura, escritura o texto. Las fuerzas de libertad que se hallan en la literatura no dependen de la persona civil, del compromiso político del escritor, que después de todo no es más que un "señor" entre otros, ni inclusive del contenido doctrinario de su obra, sino del trabajo de desplazamiento que ejerce sobre la lengua: desde este punto de vista, Céline es tan importante como Hugo, Chateaubriand o Zola."

"La ciencia es basta, la vida es sutil, y para corregir esta distancia es que nos interesa la literatura"

BARTHES, Roland. "Lección inaugural", ed. Siglo XXI, Buenos Aires, Argentina, 2003.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

o prazer do texto

"... isto não quer de modo algum dizer que sou um especialista de Proust: Proust, é o que me ocorre, não é o que eu chamo; não é uma autoridade ; é simplesmente uma lembrança circular. E é bem isto o intertexto: a impossibilidade de viver fora do texto infinito quer esse texto seja Proust, ou o jornal diário, ou atela de televisão: o livro faz o sentido, o sentido faz a vida."

BARTHES, Roland. O prazer do texto. Tradução: J. Guinsburg. São Paulo: editora perspectiva, 1987. p.49

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

a divina comédia: purgatório

"E, como fez-me o rosto levantar
que haviam parado, as primas criaturas,
de jogar flores pude averiguar;

e minhas luzes, pouco ainda seguras,
viram Beatriz olhando para a fera
que é um indivíduo só em duas naturas.

Sob seu véu constatei que ora supera
ela ainda mais a sua beleza antiga
que a das outras de quando aqui ela era."

ALIGHIERI, Dante. A divina Comédia: Purgatório. Tradução e notas de Ítalo Eugênio Mauro, São Paulo: Ed. 34. 2º edição, 2011. p. 204

domingo, 19 de janeiro de 2014

Contos completos

"Mas quando o eu fala com o eu, quem é que fala? - a alma sepulta, o espírito empurrado para dentro, cada vez mais para dentro da catacumba central; o eu que tomou véus e abandonou o mundo - um covarde talvez, contudo belo de algum modo, quando em seu desassossego perpassa de lampião na mão, a subir e descer nos corredores escuros. 'Não consigo mais suportar isso', diz o espírito dela'."
WOOLF, Virginia. Um romance não escrito. In: Contos Completos. São Paulo: Cosac Naify, 2005. p. 159

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

As Horas

"Não temas mais o calor do Sol. Nem do Inverno as violentas fúrias.
É possível morrer. Laura pensa, de súbito, como ela como qualquer pessoa - pode fazer uma escolha dessas."

CUNNINGHAM, Michael. As Horas. São Paulo: Cia das Letras, 1999. 

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Se te queres


Álvaro de Campos

Se te Queres

Se te queres matar, por que não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por atores de convenções e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fím?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!
Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...

A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é coisa depois da qual nada acontece aos outros...

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...

Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência! ...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?

Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?

Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjetividade objetiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente,
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células noturnamente conscientes
Pela noturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atômica das coisas,
Pelas paredes turbihonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O fascínio do poço

"Pois embora haja momentos em que uma concha se mostra a ponto de surpreender todos nós à luz do dia, com nossos pensamentos e anseios e indagações e confissões e desilusões, de algum modo a concha deixa alguma coisa escapar e uma vez mais nós escorremos de volta pela beira do poço."
WOOLF, Virginia. O fascínio do poço In: Contos Completos. São Paulo: Cosac Naify, 2005. p. 325

El valor de la narratividad en Hayden White: Crítica, ambivalencia y escritura de la historia.

"Ahora bien, así como no debemos elevar la narratividad a una manifestación del Ser (Ricoeur) tampoco necesitamos purgar al escrito histórico de toda narratividad (Barthes). Nuestras únicas alternativas no son la epifanía o la distorsión."


"El valor de la narratividad en Hayden White: Crítica, ambivalencia y escritura de la historia." In: Verónica Tozzi and Nicolás Lavagnino (eds.), Hayden White, la escritura del pasado y el futuro de la historiografía. (Buenos Aires, EDUNTREF, Forthcoming 2012)

sábado, 4 de janeiro de 2014

As horas

"Podia simplesmente deixá-los e regressar à sua outra casa, onde nem Sally nem Richard existem, onde há apenas a essência de Clarissa, uma rapariga que se transformou numa mulher, ainda cheia de esperança, ainda capaz de tudo. É-lhe revelado que toda a sua mágoa e solidão, toda essa estrutura frágil, deriva simplesmente de fingir viver neste apartamento entre estes objetos, com a boa e nervosa Sally, e que, se partir, será feliz, ou melhor ainda do que feliz: será ela mesma. Sente-se fugaz e maravilhosamente só, com tudo pela frente."

CUNNINGHAM, Michael. As Horas. São Paulo: Cia das Letras, 1999.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

o prazer do texto

"Na guerra das linguagens, pode haver momentos tranqüilos, e esses momentos são textos ( A guerra, diz uma das personagens de Brecht, não exclui a paz... A guerra tem seus momentos pacíficos... Entre duas escaramuças, pode-se esvaziar muito bem um canecão de cerveja... ). Entre dois assaltos de palavras, entre duas majestades de sistemas, o prazer do texto é sempre possível, não como uma distração, mas como uma passagem incongruente dissociada de uma outra linguagem, como o exercício de uma fisiologia diferente." p. 41

"... todo escritor de prazer tem suas ruborizações imbecis (Balzac, Zola, Flaubert, Proust; somente Mallarmé talvez é senhor de sua pele): no texto de prazer, as forças contrárias não se encontram mais em estado de recalcamento, mas de devir: nada é verdadeiramente antagonista, tudo é plural." p. 43 


BARTHES, Roland. O prazer do texto. Tradução: J. Guinsburg. São Paulo: editora perspectiva, 1987.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Bobók

Acho que o mais inteligente é quem ao menos uma vez por mês chama a si mesmo de imbecil — capacidade de que hoje não se ouve falar! Antes ao menos uma vez por ano o imbecil sabia sobre si mesmo que era imbecil, mas hoje, nem isso. E confundiram tanto a coisa que a gente não distingue o imbecil do inteligente.

DOSTOIÉVSKI, F. Bobók. Tradução de Paulo Bezerra. Editora 34, 2013.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

o sequestrado de veneza

"Nada acontece e nada dura, o nascimento é o espelho da morte; entre os dois há a terra arrasada, tudo é corroído pela má sorte"

SARTRE, Jean-Paul.O sequestrado de Veneza. Trad. Eloisa Araújo Ribeiro. São Paulo: Cosac Naify, 2005. p.25

O sequestrado de Veneza

"Só que em Veneza nada é simples. Pois não é uma cidade, não: é um arquipélago. Como poderíamos esquecer? De sua ilha, você olha a da frente com inveja: ali, há .. o quê? Uma solidão, uma pureza, um silêncio que não há, você juraria, do lado de cá. A verdadeira Veneza, onde quer que você esteja, está sempre em outra parte. Para mim, ao menos, é assim.  Normalmente, contento-me com o que tenho, mas, em Veneza sou presa de uma espécie de loucura invejosa, se não me contivesse estaria o tempo todo na ponte ou nas gôndolas, procurando desvairadamente a Veneza secreta da outra borda. Naturalmente, assim que a abordo, tudo desvanece, me volto: o mistério tranquilo formou-se novamente do outro lado. Há muito me resignei: Veneza está lá onde não estou."

SARTRE, Jean-Paul.Veneza de minha janela, In: O sequestrado de Veneza. Trad. Eloisa Araújo Ribeiro. São Paulo: Cosac Naify, 2005. p. 10

domingo, 1 de dezembro de 2013

"Estar com quem se ama e pensar em outra
coisa: é assim que tenho os meus melhores
pensamentos, que invento melhor o que e
necessário ao meu trabalho. O mesmo sucede com
o texto: ele produz em mim o melhor prazer se
consegue fazer-se ouvir indiretamente; se, lendoo,
sou arrastado a levantar muitas vezes a cabeça,
a ouvir outra coisa."

BARTHES, Roland. O prazer do texto. Tradução: J. Guinsburg. São Paulo: editora perspectiva, 1987. p. 34

domingo, 17 de novembro de 2013

Aprendendo a viver

DEUS



Mesmo para os descrentes há a pergunta duvidosa: e depois da morte? Mesmo para os descrentes há o instante de desespero: que Deus me ajude. Estou precisando. Precisando mais do que a força humana. E estou precisando de minha própria força. Sou forte mas também destrutiva. Autodestrutiva. E quem é autodestrutivo também destrói os outros. Estou ferindo muita gente. E Deus tem que vir a mim, já que eu não tenho ido a Ele. Venha, Deus, venha. Mesmo que eu não mereça, venha. Ou talvez os que menos merecem precisem mais. Só uma coisa a favor de mim eu posso dizer: nunca feri de propósito. E também me dói quando percebo que feri. Mas tantos defeitos tenho. Sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor: às vezes parecem farpas. Se tanto amor dentro de mim recebi e continuo inquieta e infeliz, é porque preciso que Deus venha. Venha antes que seja tarde demais.

Clarice Lispector, Aprendendo a Viver, p.205-206.