SÓ PARA VERSOS QUE LI...

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

el placer del texto

"Y, sin embargo, es el ritmo de lo que se lee y de do que no se lee aquello que construye el placer de los grandes relatos: se ha leído alguna vez a Proust, Balzac, La guerra y la paz, palabra por palavra? (El encanto de Proust: de una lectura a otra no se saltam los mismos pasajes.)"

barthes. el placer del texto. p.21
LECTORES

De aquel hidalgo de cetrina y seca
tez y de heroico afán se conjetura
que, en víspera perpetua de aventura,
no salió nunca de su biblioteca.
La crónica puntual que sus empeños
narra y sus tragicómicos desplantes
fue soñada por él, no por Cervantes,
y no es más que una crónica de sueños.
Tal es también mi suerte. Sé que hay algo
inmortal y esencial que he sepultado
en esa biblioteca del pasado
en que leí la historia del hidalgo.
Las lentas hojas vuelve un niño y grave
sueña con vagas cosas que no sabe.

Borges. el otro, el mismo.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O prazer do texto

Então o velho mito bíblico se inverte, a confusão das línguas não é mais uma punição, o sujeito chega à fruição pela coabitação das linguagens, que trabalham lado a lado: o texto de prazer é Babel feliz.

BARTHES, Roland. O prazer do texto. Tradução: J. Guinsburg. São Paulo: editora perspectiva, 1987. p.7

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

O livro por vir

Mas que um escritor tão puro quanto Virginia Woolf, que uma artista tão empenhada em criar uma obra que retivesse somente a transparência, a auréola luminosa e os leves contornos das coisas, tenha se sentido de certa maneira obrigada a voltar para junto de si, num diário tagarela em que o Eu se derrama e se consola, isso é significativo e perturbador. O diário aparece aqui como uma proteção contra a loucura, contra o perigo da escrita. Lá, em As ondas, ruge o risco de uma obra em que é preciso desaparecer. Lá, no espaço da obra, tudo se perde e talvez a própria obra se perca. O diário é a ancora que raspa o fundo do cotidiano e se agarra às asperezas da vaidade. Da mesma forma, Van Gogh tem suas cartas e um irmão para quem escrevê-las.

BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p.273

sábado, 5 de outubro de 2013

fragmentos de um discurso amoroso

 "ADORÁVEL: Não conseguindo nomear a especialidade de seu desejo pelo ser amado, o sujeito apaixonado chega a essa palavra um pouco tola: adorável!"

[p.13]

 AFIRMAÇÃO

"...o que me anima surda e obstinadamente não é tático: aceito e afirmo fora do verdadeiro e do falso, fora do êxito e do malogro; estou destituído de toda finalidade, vivo conforme o acaso (a prova é que as figuras do meu discurso me vêm como lances de dados). Confrontado com a aventura (aquilo que me ocorre), não saio nem vencedor, nem vencido: sou trágico.
(Dizem-me: esse gênero de amor não é viável. Mas como avaliar a viabilidade? Por que o que é viável é um Bem? Por que durar é melhor que inflamar?)"

  [p.16-17]


Um pontinho no nariz
ALTERAÇÃO 

"(O horror de estragar é ainda mais forte que a angústia de perder,.)
[p. 21]

AUSÊNCIA
"Essa ausência bem suportada, não é outra coisa senão o esquecimento.  Sou momentaneamente infiel. É a condição da minha sobrevivência, se não esquecesse, morreria. O enamorado que não esquece de vez em quando, morre por excesso, cansaço e tensão de memória (como Werther)."

[p. 28]

 A carta de amor
"Quando Werther (em missão junto ao Embaixador) escreve à Charlotte, sua carta segue o seguinte plano: 1. Que bom pensar em você! 2. Aqui estou eu num meio mundano e, sem você, eu me sinto muito sozinho; 3. Encontrei alguém (a senhorita de B...) que parece com você, e com quem posso falar de você; 4. Faço votos que possamos estar juntos.- Variações de uma mesma informação, como um tema musical: penso em você.
O que quer dizer ‘pensar em alguém?’ Quer dizer: esquecê-lo (sem esquecimento a vida é impossível) e despertar frequentemente desse esquecimento. Por associação, muitas coisas te trazem para meu discurso. ‘Pensar em você’ não quer dizer nada mais que essa metonímia. Por que, em si, esse pensamento é vazio: eu não te penso, simplesmente te faço voltar (na mesma proporção que te esqueço). É essa forma (esse ritmo) que chamo de ‘pensamento’: nada tenho para te dizer..."


[p.32] 

Elogio das lagrimas
"me faço chorar para provar que minha dor não é uma ilusão: as lágrimas são signos e não expressões."

[p.42] 


Eu te amo 

passada a primeira confissão, 'eu te amo' não quer dizer mais nada; apenas retoma de um modo enigmático, de tanto que ela parece vazia, a antiga mensagem (que talvez não tenha passado por essas palavras). Eu o repito fora de toda pertinência; ele sai da linguagem, divaga, onde?"

[p.97] 

Ternura
O gesto terno diz: me pede qualquer coisa que possa adormecer teu corpo, mas não esquece que te desejo um pouco, ligeiramente, sem querer possuir nada imediatamente 

[p.190]

BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Tradução de Hortência dos Santos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1981 

 

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

o livro por vir

Borges compreende que a perigosa dignidade da literatura não é a de nos fazer supor, no mundo, um grande autor absorto em suas mistificações sonhadoras, mas a de nos fazer sentir a aproximação de uma estranha potência, neutra e impessoal. Ele gosta que digam de Shakespeare: 'Ele se parecia com todos os homens, exceto no fato de se parecer com todos os homens.' Ele vê, em todos os autores, um só autor que é o único Carlyle, o único Whitman, que não é ninguém. Reconhece-se em George Moore e em Joyce - poderia dizer em Lautréamont e em Rimbaud -, capazes de incorporar em seus livros páginas e figuras que não lhe pertencem, pois o essencial é a literatura, não os indivíduos; e, na literatura, que ela seja impessoalmente, em cada livro, a unidade inesgotável de um único livro e a repetição fatigada de todos os livros."

  p. 139

o livro por vir

"Essa ligação com o erro, essa relação difícil de atingir, ainda mais difícil de manter, que se choca, naquele mesmo indivíduo que o erro mantém sobre seu fascínio, com uma dúvida, um desmentindo, essa paixão, essa atitude paradoxal concerne também ao romance, o mais feliz dos gêneros, do qual se disse sempre, porém, que chegou a seu termo. E isso era afirmado, não porque ele não produzia mais grandes obras, mas cada vez que grandes escritores escreviam grandes romances, unanimemente reconhecidos como livros literariamente consideráveis. É que, a cada vez, esses autores pareciam ter quebrado alguma coisa: eles não esgotavam o gênero como fez Homero com a epopeia, mas o alteravam com tal autoridade e um poder tão embaraçoso, às vezes tão embaraçado, que não parecia mais possível voltar à forma tradicional, nem ir mais longe no uso da forma aberrante, nem mesmo repeti-la. Isso foi dito na Inglaterra à respeito de Virginia Woolf ou de Joyce; na Alemanha, a propósito de Broch, de Musil e mesmo de A montanha mágica." [157]


"Diga-se o que disser, nem Proust nem Joyce fizeram nascer outros livros que lhes assemelhem; eles parecem não ter outro poder se não o de impedir os imitadores e desesperar as tentativas semelhantes. Eles fecham uma saída." [158]


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

o livro por vir

"Quando a palavra se torna profética, não é o futuro que é dado, é o presente que é retirado, e toda possibilidade de uma presença firme, estável e durável. Até mesmo a Cidade eterna e o Templo indestrutível são de repente - incrivelmente - destruídos. É novamente como um deserto, e a fala também é desértica, é a voz que precisa do deserto para gritar e que desperta sempre em nós o medo, a compreensão e a lembrança do deserto."

  p.114

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

toda poesia

O que quer dizer diz.
Não fica fazendo
o que, um dia, eu sempre fiz.
Não fica só querendo, querendo,
coisa que eu nunca quis.
O que quer dizer, diz.
Só se dizendo num outro
o que, um dia, se disse,
um dia, vai ser feliz.