quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
dom casmurro
"Abane a cabeça leitor; faça todos os gestos de incredulidade. Chegue a deitar fora este livro, se o tédio já o não obrigou a isso antes tudo é possível. Mas, se o não fez antes e só agora, fio que torne a pegar do livro e que o abra na mesma página, sem crer por isso na veracidade do autor. Todavia, não há nada mais exato. Foi assim mesmo que Capitu falou, com tais palavras e maneiras. Falou do primeiro filho, como se fosse a primeira boneca.
Quanto ao meu espanto, se também foi grande, veio de mistura com uma sensação esquisita. Percorreu-me um fluido. Aquela ameaça de um primeiro filho, o primeiro filho de Capitu, o casamento dela com outro, portanto, a separação absoluta, a perda, a aniquilação, tudo isso produzia um tal efeito, que não achei palavra nem gesto fiquei estúpido. Capitu sorria; eu via o primeiro filho brincando no chão..."
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Dom Casmurro
O tempo circular
Em
épocas de apogeu a conjetura de que a existência do homem é uma
quantidade constante, invariável, pode entristecer ou irritar; em tempos
de decadência (como estes), é a promessa de que nenhuma afronta,
nenhuma calamidade, nenhum ditador nos poderá empobrecer.
O tempo circular
In: História da Eternidade.
domingo, 18 de novembro de 2012
ao farol
Virginia Woolf. Ao Farol, tradução de Luiza Lobo, Ediouro, p. 96.
terça-feira, 30 de outubro de 2012
a viagem
Meio
adormecidos e murmurando palavras fragmentadas, pararam no ângulo feito
pela proa do barco, que deslizava rio abaixo. Um sino tocou na ponte de
comando e ouviram o chapinhar da água que se afastava em ondinhas dos
dois lados; um pássaro assustado no sono grasnou, voou para a árvore
mais próxima, e tudo ficou calado de novo. A escuridão derramava-se
profusamente e os deixava quase sem sentimento de vida, a não ser por
estarem parados ali, juntos, na escuridão.
Virginia Woolf. A Viagem, tradução de Lya Luft, Novo Século, p. 429/430
a viagem
(…)
Sentou-se na terra, agarrando os dois joelhos juntos, e olhou em frente
sem ver. Por algum tempo observou uma grande borboleta amarela que
abria e fechava suas asas muito lentamente sobre uma pedra chata.
— O
que é estar apaixonada? — perguntou depois de um longo silêncio; cada
palavra ao surgir lançava-se num mar desconhecido. Hipnotizada pelas
asas da borboleta, e aterrorizada pela descoberta de uma terrível
possibilidade na vida, ela ficou sentada mais algum tempo. Quando a
borboleta voou, afastando-se, ela se ergueu, e com seus dois livros
debaixo do braço voltou para casa novamente, como um soldado para uma
batalha.
Virginia Woolf, A Viagem, tradução de Lya Luft. Editora Novo Século. p. 264
domingo, 16 de setembro de 2012
a biblioteca de babel
la biblioteca de babel
j. l. borges
funes o memorioso
Entonces vi la cara de la voz que toda la noche había hablado. Ireneo t
Funes el memorioso
j. l. borges
o aleph
el aleph
J.L. Borges
álvaro de campos
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
[...]
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
[...]
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas"
tabacaria
Àlvaro de Campos
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
Drummond
Amar a nossa falta mesmo de amar,
orlando
Orlando
Virginia Woolf
orlando
Orlando, p.29
Virginia Woolf
orlando
“La beauté des dames de la cour d’Anglaterre me met dans la ravissement. On ne peut voir une dame plus gracieuse que votre reine, ni une coiffure plus belle que la sienne.”
Orlando, p.31
Virginia Woolf
orlando
Orlando, p.43
Virginia Woolf
orlando
orlando
Orlando, p.35
Virginia Woolf
vinte mil léguas submarinas
Vinte Mil Léguas Submarinas, p.29
Júlio Verne
contos completos
Um diálogo no monte Pentélico In: Contos Completos p.81
Virginia Woolf
álvaro de campos
A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?
Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.
Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.
álvaro de campos
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro. ”
Álvaro de Campos, 15-1-1928
orlando
orlando, p.137
virginia woolf
perfis
perfis, um ensaio autobiográfico, p.114
j. l. borges
perfis
perfis, um ensaio autobiográfico, p.93
j. l. borges