SÓ PARA VERSOS QUE LI...

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O vermelho e o negro


" A Sra. de Rênal pensava nas paixões como nós pensamos na loteria: engodo certo e felicidade buscada por loucos."

 p.66

O vermelho e o negro


"Mal entramos na cidade e nos sentimos atordoados pelo estardalhaço de uma máquina barulhenta e de aparência terrível. Vinte pesados martelos, ao cair com um estrondo que estremece o pavimento, são erguidos por uma roda que a água da torrente movimenta. Cada um desses martelos fabrica, a cada dia, não sei quantos milhares de pregos. São mocinhas viçosas e bonitas que apresentam aos golpes desses martelos enormes os pequenos pedaços de ferro rapidamente transformados em pregos. Esse trabalho, de aparência tão rude, é dos que mais espantam o viajante que penetra pela primeira vez nas montanhas da fronteira entra a França e a Helvécia."

 p.20

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Tudo que é sólido desmancha no ar.


" [...] esse horror tipicamente moderno foi explorado pela primeira vez por Dostoievski na sua parábola do Grande Inquisidor (Os Irmãos Karamazov, 1881). Diz o Inquisidor: 'O homem prefere a paz e até mesmo a morte à liberdade de discernir o bem e o mal. Não há nada de mais sedutor para o homem do que o livre-arbítrio, mas também nada de mais doloroso.' "

p.17-18

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A divina Comédia


" E ele: 'Volta à tua velha conhecença
na qual se ensina que o ser mais perfeito
mais sente seja o bem e seja a ofensa'"

. Segundo a doutrina aristotélica adotada por Dante, quanto mais perfeitos os indivíduos, mais intensamente eles sentiriam tanto o prazer como o sofrimento .

 p.59

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Inferno, A Divina Comédia,


"Ó alma generosa mantuana,
de quem a fama ainda no mundo dura,
e durará quanto a memória humana,

o amigo meu, mas não de sua ventura,
tão na deserta encosta está impedido,
que, de pavor, sua volta já procura;

e temo que se encontre tão perdido,
que eu tarde esteja a o socorrer levada,
pelo que dele foi no Céu ouvido.

Vai então, e co'a sua fala ilustrada
e o que mais de salvá-lo for capaz,
ajuda-o para que eu seja confortada.

Eu sou Beatriz, que peço que tu vás,
venho de aonde retornar almejo,
amor moveu-me, que falar me faz."

 p.33

sábado, 19 de janeiro de 2013

Borges e os orangotangos eternos


"A cultura solar dos mexicanos era um reconhecimento de que eles nunca teriam uma idéia para cultuar mais valiosa do que o Sol, que o Sol compensava a falta de um Goethe. "


 p.14.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O cortiço


" E um desgosto negro e profundo assoberbou-lhe o coração, um desejo forte de querer saltar e um medo invencível de cair e quebrar as pernas "

p.132

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

dom casmurro


"Abane a cabeça leitor; faça todos os gestos de incredulidade. Chegue a deitar fora este livro, se o tédio já o não obrigou a isso antes tudo é possível. Mas, se o não fez antes e só agora, fio que torne a pegar do livro e que o abra na mesma página, sem crer por isso na veracidade do autor. Todavia, não há nada mais exato. Foi assim mesmo que Capitu falou, com tais palavras e maneiras. Falou do primeiro filho, como se fosse a primeira boneca.
Quanto ao meu espanto, se também foi grande, veio de mistura com uma sensação esquisita. Percorreu-me um fluido. Aquela ameaça de um primeiro filho, o primeiro filho de Capitu, o casamento dela com outro, portanto, a separação absoluta, a perda, a aniquilação, tudo isso produzia um tal efeito, que não achei palavra nem gesto fiquei estúpido. Capitu sorria; eu via o primeiro filho brincando no chão..."


segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Dom Casmurro

"Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração - se não tiver outro daqui até ao fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto."

O tempo circular


Em épocas de apogeu a conjetura de que a existência do homem é uma quantidade constante, invariável, pode entristecer ou irritar; em tempos de decadência (como estes), é a promessa de que nenhuma afronta, nenhuma calamidade, nenhum ditador nos poderá empobrecer.


O tempo circular
In: História da Eternidade.

domingo, 18 de novembro de 2012

ao farol

Mas, já entendida, Lily sentiu que alguma coisa estava faltando; o Sr. Bankes sentiu que alguma coisa estava faltando; enrolando-se no xale, a Sra. Ramsay sentiu que alguma coisa estava faltando. E todos, inclinando-se para ouvir, pensaram: “Queira Deus não se exponha o interior da minha mente”, pois que cada um deles pensava: “Os outros o estão sentindo. Sentem-se ultrajados e indignados com o governo em relação aos pescadores, enquanto eu não sinto absolutamente nada”.

Virginia Woolf. Ao Farol, tradução de Luiza Lobo, Ediouro, p. 96.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

a viagem


Meio adormecidos e murmurando palavras fragmentadas, pararam no ângulo feito pela proa do barco, que deslizava rio abaixo. Um sino tocou na ponte de comando e ouviram o chapinhar da água que se afastava em ondinhas dos dois lados; um pássaro assustado no sono grasnou, voou para a árvore mais próxima, e tudo ficou calado de novo. A escuridão derramava-se profusamente e os deixava quase sem sentimento de vida, a não ser por estarem parados ali, juntos, na escuridão.

Virginia Woolf. A Viagem, tradução de Lya Luft, Novo Século, p. 429/430

a viagem


(…) Sentou-se na terra, agarrando os dois joelhos juntos, e olhou em frente sem ver. Por algum tempo observou uma grande borboleta amarela que abria e fechava suas asas muito lentamente sobre uma pedra chata.
— O que é estar apaixonada? — perguntou depois de um longo silêncio; cada palavra ao surgir lançava-se num mar desconhecido. Hipnotizada pelas asas da borboleta, e aterrorizada pela descoberta de uma terrível possibilidade na vida, ela ficou sentada mais algum tempo. Quando a borboleta voou, afastando-se, ela se ergueu, e com seus dois livros debaixo do braço voltou para casa novamente, como um soldado para uma batalha.

Virginia Woolf, A Viagem, tradução de Lya Luft. Editora Novo Século. p. 264

domingo, 16 de setembro de 2012

a biblioteca de babel

" Acabo de escribir infinita. No he interpolado ese adjetivo por una costumbre retórica; digo que no es ilógico pensar que el mundo es infinito. Quienes lo juzgan limitado, postulan que en lugares remotos los corredores y escaleras y hexágonos pueden inconcebiblemente cesar—lo cual es absurdo. Quienes lo imaginan sin límites, olvidan que los tiene el número posible de libros. Yo me atrevo a insinu
ar esta solución del antiguo problema: La biblioteca es ilimitada y periódica. Si un eterno viajero la atravesara en cualquier dirección, comprobaría al cabo de los siglos que los mismos volúmenes se repiten en el mismo desorden (que, repetido, sería un orden: el Orden). Mi soledad se alegra con esa elegante esperanza "

la biblioteca de babel
j. l. borges

funes o memorioso

"Había aprendido sin esfuerzo el inglés, el francés, el portugués, el latín. Sospecho, sin embargo, que no era muy capaz de pensar. Pensar es olvidar diferencias, es generalizar, abstraer. En el abarrotado mundo de Funes no había sino detalles, casi inmediatos. La recelosa claridad de la madrugada entró por el patio de tierra.
Entonces vi la cara de la voz que toda la noche había hablado. Ireneo t
enía diecinueve años; había nacido en 1868; me pareció monumental como el bronce, más antiguo que Egipto, anterior a las profecías y a las pirámides. Pensé que cada una de mis palabras (que cada uno de mis gestos) perduraría en su implacable memoria; me entorpeció el temor de multiplicar ademanes inútiles."

Funes el memorioso
j. l. borges

o aleph

"Nuestra mente es porosa para el olvido; yo mismo estoy falseando y perdiendo, bajo la trágica erosión de los años, los rasgos de Beatriz. "

el aleph
J.L. Borges

álvaro de campos

"Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

[...]

O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

[...]

Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas"

tabacaria
Àlvaro de Campos

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Drummond

Amar a nossa falta mesmo de amar,

e na secura nossa amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

( Carlos Drummond de Andrade )

orlando

” O verde na natureza é uma coisa, o verde na literatura é outra. A natureza e as letras parecem ter um antipatia natural; basta juntá-las para que se dilacerem mutuamente. A sombra do verde que Orlando via agora estragou sua rima e quebrou seu metro. Além do mais, a natureza tem suas próprias artimanhas. Basta olhar pela janela as abelhas entre as flores, um cachrorro bocejando, o pôr do sol, basta pensar ‘quantos crepúsculos ainda verei?’, etc. etc. (o pensamento é conhecido demais para valer a pena escrevê-lo) e deixa-se cair a pena, sai-se da sala e tropeça numa arca pintada. Pois Orlando era um pouco desajeitado”

Orlando
Virginia Woolf

orlando

“(Pois, embora não devamos interromper em nenhum momento a narrativa, temos que anotar aqui, às pressas, que todas as suas imagens naquela época eram extremamente simples, para combinarem com seus sentidos, e eram, em sua maioria, extraídas de coisas que tinha gostado em pequeno. Mas, se os sentidos eram simples, eram, ao mesmo tempo, extremamente fortes. Parar e procurar a razão das coisas era impossível.)”

Orlando, p.29
Virginia Woolf