SÓ PARA VERSOS QUE LI...

quinta-feira, 14 de março de 2013

O Fazedor


“Um homem se propõe a tarefa de esboçar o mundo.
Ao longo dos anos povoa um espaço com imagens de províncias,
de reinos, de montanhas, de baías, de naves (...) e de pessoas.
Pouco antes de morrer, descobre que esse paciente labirinto
de linhas traça a imagem de seu rosto”.

O retrato de Dorian Gray

Um livro não é, de modo algul, moral ou imoral. Os livros são bem ou mal escritos. Eis tudo. A aversão do século XIX ao Realismo é a cólera de Calibã por ver o seu rosto num espelho. A aversão do século XIX ao Romantiso é a cólera de Calibã por não ver o seu próprio rosto num espelho.

O retrato de Dorian Gray


 "... mas a beleza, a verdadeira beleza acaba onde começa a expressão intelectual. A intelectualidade é em sim mesma um mdoe de exagero e destrói a harmonia de qualquer rosto"

O retrato de Dorian Gray

" - Harry - disse Basílio Hallward, fitando-o nos olhos, - todo retrato pintado com sentimento é um retrato do artista, não do modelo. O modelo é simplesmente o acidente, a ocasião. Não é ele que o pintor revela; quem se revela sobre a tela colorida é o próprio pintor. A razão pela qual não exibirei esse retrato está no temor de mostrar nele o segredo da minha própria alma."

terça-feira, 5 de março de 2013

Avenida Niévski


Permaneceu deitado na cama até o meio-dia, desejando adormecer, mas ela não aparecia. Se ao menos por um instante ela revelasse seus maravilhosos traços, se ao menos por um minuto ressoasse o seu leve caminhar, se ao menos, num relance, a sua mão desnuda, reluzente como a neve de além das nuvens, surgisse à sua frente.

p.51

Avenida Niévski


Mente a qualquer hora essa Avenida Niévski, mas acima de tudo quando a noite cai sobre ela, na forma de uma massa compacta, destacando as paredes brancas e cor-de-palha das casas; então, a cidade inteira se transforma em estrondo e fulgor, miríades de carruagens projetam-se nas pontes e os boleeiros berram e pulam sobre os cavalos, quando o próprio demônio acende os lampiões apenas para tudo revelar sob uma falsa aparência.

p.91

Avenida Niévski


“Nosso mundo está organizado de uma forma surpreendente! – pensava eu enquanto caminhava anteontem, pela Avenida Niévski, rememorando esses dois episódios. – De que maneira estranha, incompreensível, joga conosco o nosso destino! Será que em algum momento recebemos aquilo que desejamos? Será que logramos aquilo para o que as nossas forças aparentemente foram feitas sob medida? Tudo acontece ao contrário. Àquele o destino proporcionou belos cavalos e ele passeia neles com indiferença, sem notar, em absoluto a sua beleza, - enquanto um outro tem uma paixão inflamada por eqüinos, mas caminha a pé e contenta-se apenas em estalar a língua quando por ele passa alguém conduzindo um trotão. Aquele possui um excelente cozinheiro mas, infelizmente, uma boca tão pequena que não permite, de maneira alguma, a passagem de mais de dois pedacinhos; um outro possui a boca do tamanho do arco do Estado- Maior mas, aí, deve satisfazer-se com qualquer almoço alemão, de batatas. De que estranha maneira brinca conosco o nosso destino!”

p.89

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O vermelho e o negro


" A Sra. de Rênal pensava nas paixões como nós pensamos na loteria: engodo certo e felicidade buscada por loucos."

 p.66

O vermelho e o negro


"Mal entramos na cidade e nos sentimos atordoados pelo estardalhaço de uma máquina barulhenta e de aparência terrível. Vinte pesados martelos, ao cair com um estrondo que estremece o pavimento, são erguidos por uma roda que a água da torrente movimenta. Cada um desses martelos fabrica, a cada dia, não sei quantos milhares de pregos. São mocinhas viçosas e bonitas que apresentam aos golpes desses martelos enormes os pequenos pedaços de ferro rapidamente transformados em pregos. Esse trabalho, de aparência tão rude, é dos que mais espantam o viajante que penetra pela primeira vez nas montanhas da fronteira entra a França e a Helvécia."

 p.20

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Tudo que é sólido desmancha no ar.


" [...] esse horror tipicamente moderno foi explorado pela primeira vez por Dostoievski na sua parábola do Grande Inquisidor (Os Irmãos Karamazov, 1881). Diz o Inquisidor: 'O homem prefere a paz e até mesmo a morte à liberdade de discernir o bem e o mal. Não há nada de mais sedutor para o homem do que o livre-arbítrio, mas também nada de mais doloroso.' "

p.17-18

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A divina Comédia


" E ele: 'Volta à tua velha conhecença
na qual se ensina que o ser mais perfeito
mais sente seja o bem e seja a ofensa'"

. Segundo a doutrina aristotélica adotada por Dante, quanto mais perfeitos os indivíduos, mais intensamente eles sentiriam tanto o prazer como o sofrimento .

 p.59

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Inferno, A Divina Comédia,


"Ó alma generosa mantuana,
de quem a fama ainda no mundo dura,
e durará quanto a memória humana,

o amigo meu, mas não de sua ventura,
tão na deserta encosta está impedido,
que, de pavor, sua volta já procura;

e temo que se encontre tão perdido,
que eu tarde esteja a o socorrer levada,
pelo que dele foi no Céu ouvido.

Vai então, e co'a sua fala ilustrada
e o que mais de salvá-lo for capaz,
ajuda-o para que eu seja confortada.

Eu sou Beatriz, que peço que tu vás,
venho de aonde retornar almejo,
amor moveu-me, que falar me faz."

 p.33

sábado, 19 de janeiro de 2013

Borges e os orangotangos eternos


"A cultura solar dos mexicanos era um reconhecimento de que eles nunca teriam uma idéia para cultuar mais valiosa do que o Sol, que o Sol compensava a falta de um Goethe. "


 p.14.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O cortiço


" E um desgosto negro e profundo assoberbou-lhe o coração, um desejo forte de querer saltar e um medo invencível de cair e quebrar as pernas "

p.132

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

dom casmurro


"Abane a cabeça leitor; faça todos os gestos de incredulidade. Chegue a deitar fora este livro, se o tédio já o não obrigou a isso antes tudo é possível. Mas, se o não fez antes e só agora, fio que torne a pegar do livro e que o abra na mesma página, sem crer por isso na veracidade do autor. Todavia, não há nada mais exato. Foi assim mesmo que Capitu falou, com tais palavras e maneiras. Falou do primeiro filho, como se fosse a primeira boneca.
Quanto ao meu espanto, se também foi grande, veio de mistura com uma sensação esquisita. Percorreu-me um fluido. Aquela ameaça de um primeiro filho, o primeiro filho de Capitu, o casamento dela com outro, portanto, a separação absoluta, a perda, a aniquilação, tudo isso produzia um tal efeito, que não achei palavra nem gesto fiquei estúpido. Capitu sorria; eu via o primeiro filho brincando no chão..."


segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Dom Casmurro

"Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração - se não tiver outro daqui até ao fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto."

O tempo circular


Em épocas de apogeu a conjetura de que a existência do homem é uma quantidade constante, invariável, pode entristecer ou irritar; em tempos de decadência (como estes), é a promessa de que nenhuma afronta, nenhuma calamidade, nenhum ditador nos poderá empobrecer.


O tempo circular
In: História da Eternidade.

domingo, 18 de novembro de 2012

ao farol

Mas, já entendida, Lily sentiu que alguma coisa estava faltando; o Sr. Bankes sentiu que alguma coisa estava faltando; enrolando-se no xale, a Sra. Ramsay sentiu que alguma coisa estava faltando. E todos, inclinando-se para ouvir, pensaram: “Queira Deus não se exponha o interior da minha mente”, pois que cada um deles pensava: “Os outros o estão sentindo. Sentem-se ultrajados e indignados com o governo em relação aos pescadores, enquanto eu não sinto absolutamente nada”.

Virginia Woolf. Ao Farol, tradução de Luiza Lobo, Ediouro, p. 96.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

a viagem


Meio adormecidos e murmurando palavras fragmentadas, pararam no ângulo feito pela proa do barco, que deslizava rio abaixo. Um sino tocou na ponte de comando e ouviram o chapinhar da água que se afastava em ondinhas dos dois lados; um pássaro assustado no sono grasnou, voou para a árvore mais próxima, e tudo ficou calado de novo. A escuridão derramava-se profusamente e os deixava quase sem sentimento de vida, a não ser por estarem parados ali, juntos, na escuridão.

Virginia Woolf. A Viagem, tradução de Lya Luft, Novo Século, p. 429/430

a viagem


(…) Sentou-se na terra, agarrando os dois joelhos juntos, e olhou em frente sem ver. Por algum tempo observou uma grande borboleta amarela que abria e fechava suas asas muito lentamente sobre uma pedra chata.
— O que é estar apaixonada? — perguntou depois de um longo silêncio; cada palavra ao surgir lançava-se num mar desconhecido. Hipnotizada pelas asas da borboleta, e aterrorizada pela descoberta de uma terrível possibilidade na vida, ela ficou sentada mais algum tempo. Quando a borboleta voou, afastando-se, ela se ergueu, e com seus dois livros debaixo do braço voltou para casa novamente, como um soldado para uma batalha.

Virginia Woolf, A Viagem, tradução de Lya Luft. Editora Novo Século. p. 264