SÓ PARA VERSOS QUE LI...

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

o prazer do texto

"... isto não quer de modo algum dizer que sou um especialista de Proust: Proust, é o que me ocorre, não é o que eu chamo; não é uma autoridade ; é simplesmente uma lembrança circular. E é bem isto o intertexto: a impossibilidade de viver fora do texto infinito quer esse texto seja Proust, ou o jornal diário, ou atela de televisão: o livro faz o sentido, o sentido faz a vida."

BARTHES, Roland. O prazer do texto. Tradução: J. Guinsburg. São Paulo: editora perspectiva, 1987. p.49

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

a divina comédia: purgatório

"E, como fez-me o rosto levantar
que haviam parado, as primas criaturas,
de jogar flores pude averiguar;

e minhas luzes, pouco ainda seguras,
viram Beatriz olhando para a fera
que é um indivíduo só em duas naturas.

Sob seu véu constatei que ora supera
ela ainda mais a sua beleza antiga
que a das outras de quando aqui ela era."

ALIGHIERI, Dante. A divina Comédia: Purgatório. Tradução e notas de Ítalo Eugênio Mauro, São Paulo: Ed. 34. 2º edição, 2011. p. 204

domingo, 19 de janeiro de 2014

Contos completos

"Mas quando o eu fala com o eu, quem é que fala? - a alma sepulta, o espírito empurrado para dentro, cada vez mais para dentro da catacumba central; o eu que tomou véus e abandonou o mundo - um covarde talvez, contudo belo de algum modo, quando em seu desassossego perpassa de lampião na mão, a subir e descer nos corredores escuros. 'Não consigo mais suportar isso', diz o espírito dela'."
WOOLF, Virginia. Um romance não escrito. In: Contos Completos. São Paulo: Cosac Naify, 2005. p. 159

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

As Horas

"Não temas mais o calor do Sol. Nem do Inverno as violentas fúrias.
É possível morrer. Laura pensa, de súbito, como ela como qualquer pessoa - pode fazer uma escolha dessas."

CUNNINGHAM, Michael. As Horas. São Paulo: Cia das Letras, 1999. 

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Se te queres


Álvaro de Campos

Se te Queres

Se te queres matar, por que não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por atores de convenções e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fím?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!
Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...

A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é coisa depois da qual nada acontece aos outros...

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...

Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência! ...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?

Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?

Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjetividade objetiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente,
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células noturnamente conscientes
Pela noturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atômica das coisas,
Pelas paredes turbihonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O fascínio do poço

"Pois embora haja momentos em que uma concha se mostra a ponto de surpreender todos nós à luz do dia, com nossos pensamentos e anseios e indagações e confissões e desilusões, de algum modo a concha deixa alguma coisa escapar e uma vez mais nós escorremos de volta pela beira do poço."
WOOLF, Virginia. O fascínio do poço In: Contos Completos. São Paulo: Cosac Naify, 2005. p. 325

El valor de la narratividad en Hayden White: Crítica, ambivalencia y escritura de la historia.

"Ahora bien, así como no debemos elevar la narratividad a una manifestación del Ser (Ricoeur) tampoco necesitamos purgar al escrito histórico de toda narratividad (Barthes). Nuestras únicas alternativas no son la epifanía o la distorsión."


"El valor de la narratividad en Hayden White: Crítica, ambivalencia y escritura de la historia." In: Verónica Tozzi and Nicolás Lavagnino (eds.), Hayden White, la escritura del pasado y el futuro de la historiografía. (Buenos Aires, EDUNTREF, Forthcoming 2012)

sábado, 4 de janeiro de 2014

As horas

"Podia simplesmente deixá-los e regressar à sua outra casa, onde nem Sally nem Richard existem, onde há apenas a essência de Clarissa, uma rapariga que se transformou numa mulher, ainda cheia de esperança, ainda capaz de tudo. É-lhe revelado que toda a sua mágoa e solidão, toda essa estrutura frágil, deriva simplesmente de fingir viver neste apartamento entre estes objetos, com a boa e nervosa Sally, e que, se partir, será feliz, ou melhor ainda do que feliz: será ela mesma. Sente-se fugaz e maravilhosamente só, com tudo pela frente."

CUNNINGHAM, Michael. As Horas. São Paulo: Cia das Letras, 1999.