Instante
Deixai-me limpo
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio
( sophia de mello breyner andresen )
SÓ PARA VERSOS QUE LI...
domingo, 22 de setembro de 2013
O livro por vir
"Quando lemos essas páginas, aprendemos o que não conseguimos saber: que o fato de pensar só pode ser perturbador; que aquilo que existe para ser pensado, é no pensamento, o que dele se afasta, e nele se exaure inesgotavelmente; que sofrer e pensar estão ligados de uma maneira secreta, pois se o sofrimento, quando se torna extremo, é tal que destrói o poder de sofrer, destruindo sempre à frente dele mesmo, no tempo, o tempo em que ele poderia ser retomado e acabado como sofrimento, o mesmo acontece, talvez, com o pensamento. Estranhas relações. Será que o extremo pensamento e o extremo sofrimento abrem o mesmo horizonte? Será que sofrer é, finalmente, pensar?"
BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p.56
BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p.56
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
a espuma dos dias
" - Esse nenúfar - disse Colin. - Onde será que ela foi pegar isso?
- Ela tá com um nenúfar? - perguntou Nicolas incrédulo.
- No pulmão direito - disse Colin. - No começo, o professor achava que não passava de alguma coisa animal. Mas é isso. Vimos na tela. Já está bem grande, mas, enfim, a gente deve conseguir superar."
p.155-156.
- Ela tá com um nenúfar? - perguntou Nicolas incrédulo.
- No pulmão direito - disse Colin. - No começo, o professor achava que não passava de alguma coisa animal. Mas é isso. Vimos na tela. Já está bem grande, mas, enfim, a gente deve conseguir superar."
p.155-156.
a espuma dos dias
" -
Não... - disse Colin. - Posso chegar a cem se o senhor aceitar ser pago
em várias vezes. Será que o senhor se dá conta do que é dizer 'A Chloé
morreu'?
- O senhor saber - disse o Religioso, estou acostumado, então isso não faz mais efeito em mim. Eu deveria lhe aconselhar a se dirigir a Deus, mas penso que, com uma soma tão fraca, talvez seja melhor não incomodá-lo.
- Oh! - disse Colin. - Não vou incomodá-lo. Não acredito que ele seja capaz de muita coisa, porque, veja só, a Chloé morreu."
p.241
- O senhor saber - disse o Religioso, estou acostumado, então isso não faz mais efeito em mim. Eu deveria lhe aconselhar a se dirigir a Deus, mas penso que, com uma soma tão fraca, talvez seja melhor não incomodá-lo.
- Oh! - disse Colin. - Não vou incomodá-lo. Não acredito que ele seja capaz de muita coisa, porque, veja só, a Chloé morreu."
p.241
sábado, 31 de agosto de 2013
a espuma dos dias
" -
Pois então, perguntei se ela gostava de Jean-Sol Partre, ela me disse
que colecionava as obras dele... Então eu disse: 'Eu também...'. E, cada
vez que eu lhe dizia alguma coisa, ela respondia: 'Eu também...' e
vice-versa... Então, no final, só para ter uma experiência
existencialista, eu disse a ela: 'Amo muito a senhora', e ela disse:
'Oh!'
- A experiência deu errado.
- É. Mas, mesmo assim, ela não foi embora. Então eu disse a ela: 'Vou naquela direção', e ela disse: 'Eu não', e acrescentou: 'Vou por ali.'
- Extraordinário.
- Então eu disse: 'Eu também'. E, aonde quer que ela fosse, lá estava eu."
p.20-21
- A experiência deu errado.
- É. Mas, mesmo assim, ela não foi embora. Então eu disse a ela: 'Vou naquela direção', e ela disse: 'Eu não', e acrescentou: 'Vou por ali.'
- Extraordinário.
- Então eu disse: 'Eu também'. E, aonde quer que ela fosse, lá estava eu."
p.20-21
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
"o círculo antropológico", in: história da loucura: na idade clássica
"Isso não significa que a loucura seja a única linguagem comum à obra e ao mundo moderno (perigos do patético das maldições, perigo inverso e simétrico das psicanálises); mas isso significa que, através da loucura, uma obra que parece absorver-se no mundo, que parece revelar aí seu não-senso e aí transfigurar-se nos traços apenas do patológico, no fundo engaja nela o tempo do mundo, domina-o e o conduz; pela loucura que a interrompe, uma obra abre um vazio, um tempo de silêncio, uma questão sem resposta, provoca um dilaceramento sem reconciliação onde o mundo é obrigado a interrogar-se. O que existe de necessariamente profanador numa obra retorna através disso e, no tempo dessa obra que desmoronou no silêncio, o mundo sente sua culpabilidade."
p.583-584
quarta-feira, 31 de julho de 2013
rumo ao farol
E isso - pensou Lily pondo tinta verde no pincel-, esse hábito de inventar cenas sobre os outros é o que chamamos "conhecê-los", "pensar" neles, "gostar" deles! Não havia a menos verdade nisso; era uma total invenção; contudo, era desse modo que os conhecia. Continuou abrindo caminho em seu quadro, de volta ao passado"
p.186
terça-feira, 30 de julho de 2013
rumo ao farol
"Os dois permaneceram ali, sorridentes. Ambos sentiram uma alegria em comum, exaltados pelas ondas em movimento; e então, pela corrida cortante e rápida de um barco que, tendo traçado uma curva na baía, parou, estremeceu, deixou tombar a vela, com um instinto natural para completar o quadro, após esse rápido movimento, ambos olharam para as dunas distantes e, em vez de alegria, uma certa tristeza abateu-se sobre eles - em parte porque tudo estava completo, em parte porque paisagens distantes parecem ultrapassar de um bilhão de anos (pensou Lily) aquele que as observa, e estar em comunhão com um céu que contempla uma terra em completo descanso."
p. 24
domingo, 21 de julho de 2013
nadja
"Cada
vez que estive lá, senti que me abandonava pouco a pouco o desejo de
sair, precisando argumentar comigo mesmo para escapar desse enlace tão
suave, tão agradável e insistente demais e, em última instância,
aflitivo."
nadja
"Porque
a produção de imagens de sonho depende sempre pelo menos desse duplo
jogo de espelhos, nela encontramos a indicação do papel muito especial,
sem dúvida eminentemente revelador, no mais alto grau
‘supradeterminante’, no sentido freudiano, que certas impressões muito
fortes são chamadas a desempenhar, nada contamináveis pela moralidade,
verdadeiramente percebidas ‘acima do bem e do mal’ no sonho e, em
seguida, no que lhes opomos muito sumariamente sob o nome de realidade."
p.55
domingo, 23 de junho de 2013
terça-feira, 18 de junho de 2013
mrs. dalloway
"Bem, diverti-me; sempre foi alguma coisa, pensou, olhando para os oscilantes vasos de pálidos gerânios. Um prazer desfeito em pó, pois era meio inventado, como muito bem o sabia; inventada, aquela aventura com a moça; fabricada, como se fabrica a melhor parte da vida, pensou - como a gente se fabrica a si mesmo; a vida; como se inventa uma deliciosa diversão e qualquer coisa mais. Era esquisito, e inteiramente verdade, tudo o que não se podia compartilhar... esvaía-se em pó." p.55-56.
sábado, 15 de junho de 2013
mrs. dalloway
“E Clarrisa
inclinou-se, tomou-lhe a mão, atraiu-o para si, beijou-o – sentiu realmente a
face dele contra a sua, antes que ela pudesse dominar no seu peito um tumulto
de plumas argentadas, como ervas do pampa a um vento tropical, que, ao
aplacar-se, deixou-a ali, segurando-lhe a mão, batendo-lhe no joelho e
sentindo-se, quando tornara a sentar-se, extraordinariamente à vontade com ele
e de coração leve; e instantaneamente pensou: se eu tivesse casado com Peter,
teria essa alegria toda a vida.
Mas tudo estava acabado
para ela. O lençol estendido e a cama estreita. Tinha subido sozinha à torre e
deixara-os colhendo amora ao sol. A porta fechara-se, e lá em cima, entre a
poeira do reboco caído e restos de ninhos de pássaros, de que distância se
olhava e como os sonhos chegavam amortecidos! (aquela vez em Leith Hill,
lembrou-se)e chamou um pensamento: ‘Richard! Richard!’, como uma pessoa
adormecida que se sobressalta, e estende a mão no escuro, em busca de um apoio.
Almoçando com Lady Bruton, lembrou-se. Deixou-me; estou sozinha para sempre,
pensou ela, enlaçando as mãos no joelho.
Peter Walsh erguera-se
e fora até a janela, onde permanecia de costas para Clarissa, passando pela
face um lenço estampado. Impressionante, severo, desolado, parecia ele, com as
mãos magras omoplatas a soergue-lhe o casaco; assoava o nariz. Leva-me contigo!
Pensou Clarissa num impulso, como se ele fosse partir imediatamente pra uma
longa viagem; e, no instante seguinte,
foi como se tivesse passado os cinco atos de uma peça excitante e
movimentada, nos quais ela tivesse vivido toda uma vida e fugido, vivido com
Peter e tudo agora estivesse terminado.”
p.48-49
mrs. Dalloway
"O estranho, quando
recordava era a pureza, a integridade de seus sentimentos para com Sally. Não
era como o que se sente por um homem. Era completamente desinteressado, e, de
resto, tinha uma qualidade que só pode existir entre mulheres, entre mulheres
recém-saídas da adolescência. Era um sentimento protetor por sua parte;provinha
da impressão de estarem coligadas, o pressentimento de que alguma coisa
fatalmente as separaria... Mas o seu encanto era irresistível, pelo menos pra
ela, tanto que se revia parada em seu quarto do alto da casa, com o jarro de
água quente nas mãos e dizendo em voz alta: ‘Ela está debaixo desse mesmo
teto... ela está debaixo desse mesmo teto.’
Não, essas palavras agora não
significavam exatamente nada para ela. Nem sequer lhe despertavam um eco da
antiga emoção. Mas poderia recordar
ainda que sentira um arrepio de excitação e que começara a pentear os cabelos
num espécie de êxtase ( e agora lhe vinha voltando os velhos sentimentos
enquanto retirava os grampos, colocava-os no toucador e começava a pentear-se), enquanto as gralhas se alçavam
e abatiam então, na luz rosada co crepúsculo, e ela se vestira e descera as escadas,
sentindo, ao cruzar o vestíbulo: ‘Se tivesse de morrer agora, nunca teria sido
mais feliz.’ Esse o sentimento – o sentimento de Otelo, e sentia-o, estava
certa, tão fortemente como Shakespeare pretendia que Otelo o sentisse, tudo
porque baixava, vestida de branco, para jantar com Sally Seton!”
p.
36-37.
quinta-feira, 30 de maio de 2013
segunda-feira, 13 de maio de 2013
as ondas
"Entre o tormentos e devastações da vida, existe este - nossos amigos não são capazes de concluir suas histórias."
p. 43
p. 43
la outra muerte
" En cuanto a mí, entiendo no recorrer un
peligro análogo. He adivinado y registrado un proceso no accesible a los
hombres, una suerte de escándalo de la razón; pero algunas
circunstancias mitigan ese privilegio temible. Por lo pronto, no estoy
seguro de haber escrito siempre la verdad. Sospecho que en mi relato hay
falsos recuerdos. Sospecho que Pedro Damián (si existió) no se llamó
Pedro Damián, y que yo lo recuerdo bajo ese nombre para creer algún día
que su historia me fue sugerida por los
argumentos de Pier Damiani. Algo parecido acontece con el poema que
mencione en el primer párrafo y que versa sobre la irrevocabilidad del
pasado. Hacia 1951 creeré haber fabricado un cuento fantástico y habré
historiado un hecho real; también el inocente Virgilio, hará dos mil
años, creyó anunciar el nacimiento de un hombre y vaticinaba el de
Dios."
In: el aleph
In: el aleph
as ondas
"Ah,
Deus, fazei com que passem. Fazei com que deponham sua borboletas sobre
um lenço no chão. Fazei com que contem sua borboletas- tartaruga, suas
almirantes vermelhas, e as brancas. Deixai-me, porém, permanecer
invisível."
p. 18
p. 18
deutsches requiem
"Ninguém
pode ser, digo, ninguém pode provar um copo d'água ou partir uma fatia
de pão, sem justificativa. Para cada homem essa justificativa é
diferente; eu esperava a guerra inexorável que provaria nossa fé."
in: o aleph, p.74.
in: o aleph, p.74.
Assinar:
Postagens (Atom)