SÓ PARA VERSOS QUE LI...

domingo, 23 de junho de 2013

toda poesia

dura o diamante
dentro da pedra pura.
de agora em diante
só o durante dura.

p.364

terça-feira, 18 de junho de 2013

mrs. dalloway

"Bem, diverti-me; sempre foi alguma coisa, pensou, olhando para os oscilantes vasos de pálidos gerânios. Um prazer desfeito em pó, pois era meio inventado, como muito bem o sabia; inventada, aquela aventura com a moça; fabricada, como se fabrica a melhor parte da vida, pensou - como a gente se fabrica a si mesmo; a vida; como se inventa uma deliciosa diversão e qualquer coisa mais. Era esquisito, e inteiramente verdade, tudo o que não se podia compartilhar... esvaía-se em pó." p.55-56.

sábado, 15 de junho de 2013

mrs. dalloway

“E Clarrisa inclinou-se, tomou-lhe a mão, atraiu-o para si, beijou-o – sentiu realmente a face dele contra a sua, antes que ela pudesse dominar no seu peito um tumulto de plumas argentadas, como ervas do pampa a um vento tropical, que, ao aplacar-se, deixou-a ali, segurando-lhe a mão, batendo-lhe no joelho e sentindo-se, quando tornara a sentar-se, extraordinariamente à vontade com ele e de coração leve; e instantaneamente pensou: se eu tivesse casado com Peter, teria essa alegria toda a vida.

Mas tudo estava acabado para ela. O lençol estendido e a cama estreita. Tinha subido sozinha à torre e deixara-os colhendo amora ao sol. A porta fechara-se, e lá em cima, entre a poeira do reboco caído e restos de ninhos de pássaros, de que distância se olhava e como os sonhos chegavam amortecidos! (aquela vez em Leith Hill, lembrou-se)e chamou um pensamento: ‘Richard! Richard!’, como uma pessoa adormecida que se sobressalta, e estende a mão no escuro, em busca de um apoio. Almoçando com Lady Bruton, lembrou-se. Deixou-me; estou sozinha para sempre, pensou ela, enlaçando as mãos no joelho.

Peter Walsh erguera-se e fora até a janela, onde permanecia de costas para Clarissa, passando pela face um lenço estampado. Impressionante, severo, desolado, parecia ele, com as mãos magras omoplatas a soergue-lhe o casaco; assoava o nariz. Leva-me contigo! Pensou Clarissa num impulso, como se ele fosse partir imediatamente pra uma longa viagem; e, no instante seguinte,  foi como se tivesse passado os cinco atos de uma peça excitante e movimentada, nos quais ela tivesse vivido toda uma vida e fugido, vivido com Peter e tudo agora estivesse terminado.”

p.48-49

mrs. Dalloway



"O estranho, quando recordava era a pureza, a integridade de seus sentimentos para com Sally. Não era como o que se sente por um homem. Era completamente desinteressado, e, de resto, tinha uma qualidade que só pode existir entre mulheres, entre mulheres recém-saídas da adolescência. Era um sentimento protetor por sua parte;provinha da impressão de estarem coligadas, o pressentimento de que alguma coisa fatalmente as separaria... Mas o seu encanto era irresistível, pelo menos pra ela, tanto que se revia parada em seu quarto do alto da casa, com o jarro de água quente nas mãos e dizendo em voz alta: ‘Ela está debaixo desse mesmo teto... ela está debaixo desse mesmo teto.’



Não, essas palavras agora não significavam exatamente nada para ela. Nem sequer lhe despertavam um eco da antiga emoção.  Mas poderia recordar ainda que sentira um arrepio de excitação e que começara a pentear os cabelos num espécie de êxtase ( e agora lhe vinha voltando os velhos sentimentos enquanto retirava os grampos, colocava-os no toucador e começava  a pentear-se), enquanto as gralhas se alçavam e abatiam então, na luz rosada co crepúsculo, e ela se vestira e descera as escadas, sentindo, ao cruzar o vestíbulo: ‘Se tivesse de morrer agora, nunca teria sido mais feliz.’ Esse o sentimento – o sentimento de Otelo, e sentia-o, estava certa, tão fortemente como Shakespeare pretendia que Otelo o sentisse, tudo porque baixava, vestida de branco, para jantar com Sally Seton!”


p. 36-37.