SÓ PARA VERSOS QUE LI...

domingo, 16 de setembro de 2012

a biblioteca de babel

" Acabo de escribir infinita. No he interpolado ese adjetivo por una costumbre retórica; digo que no es ilógico pensar que el mundo es infinito. Quienes lo juzgan limitado, postulan que en lugares remotos los corredores y escaleras y hexágonos pueden inconcebiblemente cesar—lo cual es absurdo. Quienes lo imaginan sin límites, olvidan que los tiene el número posible de libros. Yo me atrevo a insinu
ar esta solución del antiguo problema: La biblioteca es ilimitada y periódica. Si un eterno viajero la atravesara en cualquier dirección, comprobaría al cabo de los siglos que los mismos volúmenes se repiten en el mismo desorden (que, repetido, sería un orden: el Orden). Mi soledad se alegra con esa elegante esperanza "

la biblioteca de babel
j. l. borges

funes o memorioso

"Había aprendido sin esfuerzo el inglés, el francés, el portugués, el latín. Sospecho, sin embargo, que no era muy capaz de pensar. Pensar es olvidar diferencias, es generalizar, abstraer. En el abarrotado mundo de Funes no había sino detalles, casi inmediatos. La recelosa claridad de la madrugada entró por el patio de tierra.
Entonces vi la cara de la voz que toda la noche había hablado. Ireneo t
enía diecinueve años; había nacido en 1868; me pareció monumental como el bronce, más antiguo que Egipto, anterior a las profecías y a las pirámides. Pensé que cada una de mis palabras (que cada uno de mis gestos) perduraría en su implacable memoria; me entorpeció el temor de multiplicar ademanes inútiles."

Funes el memorioso
j. l. borges

o aleph

"Nuestra mente es porosa para el olvido; yo mismo estoy falseando y perdiendo, bajo la trágica erosión de los años, los rasgos de Beatriz. "

el aleph
J.L. Borges

álvaro de campos

"Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

[...]

O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

[...]

Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas"

tabacaria
Àlvaro de Campos

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Drummond

Amar a nossa falta mesmo de amar,

e na secura nossa amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

( Carlos Drummond de Andrade )

orlando

” O verde na natureza é uma coisa, o verde na literatura é outra. A natureza e as letras parecem ter um antipatia natural; basta juntá-las para que se dilacerem mutuamente. A sombra do verde que Orlando via agora estragou sua rima e quebrou seu metro. Além do mais, a natureza tem suas próprias artimanhas. Basta olhar pela janela as abelhas entre as flores, um cachrorro bocejando, o pôr do sol, basta pensar ‘quantos crepúsculos ainda verei?’, etc. etc. (o pensamento é conhecido demais para valer a pena escrevê-lo) e deixa-se cair a pena, sai-se da sala e tropeça numa arca pintada. Pois Orlando era um pouco desajeitado”

Orlando
Virginia Woolf

orlando

“(Pois, embora não devamos interromper em nenhum momento a narrativa, temos que anotar aqui, às pressas, que todas as suas imagens naquela época eram extremamente simples, para combinarem com seus sentidos, e eram, em sua maioria, extraídas de coisas que tinha gostado em pequeno. Mas, se os sentidos eram simples, eram, ao mesmo tempo, extremamente fortes. Parar e procurar a razão das coisas era impossível.)”

Orlando, p.29
Virginia Woolf

orlando

“La beauté des dames de la cour d’Anglaterre me met dans la ravissement. On ne peut voir une dame plus gracieuse que votre reine, ni une coiffure plus belle que la sienne.”

Orlando, p.31
Virginia Woolf

orlando

“Ruína e morte, pensou, cobrem tudo. A vida do homem termina no túmulo.”

Orlando, p.43
Virginia Woolf

orlando

“Terá o dedo da morte que ser colocado no tumulto da vida, de tempos em tempos, para que não sejamos dilacerados? Será que somos feitos de tal forma que devemos receber a morte em pequenas doses diariamente, ou não podemos continuar com o direito à vida? E então, que estranhos poderes são esses que penetram nossos caminhos mais secretos e mudam nossos bens mais preciosos apesar da nossa vontade? Teria Orlando, abatido pelo limite de seu sofrimento, morrido por uma semana e ressuscitado depois? E, se assim foi de que natureza é a morte e de que natureza é a vida? Depois de esperamos mais de uma hora por uma resposta a essas questões, e não tendo chegado nenhuma, vamos continuar com a narrativa.”

Orlando, p. 51 Virginia Woolf

orlando

“Depois, de repente, Orlando caía em uma de suas expressões de melancolia; a visão da velha mancando sobre o gelo podia ser a causa disso, ou não haver nada; atirava-se de rosto para baixo no gelo, olhava as águas congeladas e pensava na morte. Pois o filósofo tem razão em dizer que nada mais espesso do que a lâmina de uma faca separa a felicidade da melancolia, e prossegue opinando que são gêmeas; e daí chega à conclusão de que todos os sentimentos extremos são aparentados da loucura… “


Orlando, p.35
Virginia Woolf

vinte mil léguas submarinas

“Penso que o acaso nos revelou um importante segredo. Ora, se a tripulação deste navio submarino tem interesse em mantê-lo ignoto, e se esse interesse for para eles mais importante do que três vidas humanas, acho que a nossa existência está comprometida. Em caso contrário, na primeira ocasião, o monstro que nos engoliu há de devolver-nos ao mundo habitado pelos nossos semelhantes.”

Vinte Mil Léguas Submarinas, p.29
Júlio Verne

contos completos

“Olhem para o Apolo em Olímpia, exclamou, ou para a cabeça de um rapaz em Atenas, leiam Antígona, andem pelas ruínas do Paternon e perguntem-se se haveria espaço, quer ao lado, quer aos pés, para qualquer forma posterior de beleza aí postar-se. Não é antes verdade, como sugere a fantasia, na escuridão e na pálida aurora, que flutuam no vago, para que o pensamento as persiga, tantas formas de beleza quantas foram circundadas de linguagem e pedra pelos gregos, e que nada nos resta a não ser adorar em silêncio ou, se preferirmos, agitar o ar vazio?”

Um diálogo no monte Pentélico In: Contos Completos p.81
Virginia Woolf

álvaro de campos

Apontamento

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.

Álvaro de Campos

álvaro de campos

” Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro. ”

Álvaro de Campos, 15-1-1928

orlando

Assim, somos forçados a concluir que a sociedade é uma dessas misturas que as donas de casa habilidosas servem quentes no período natalino, cujo sabor depende da mescla e da agitação adequadas de uma dúzia de diferentes ingredientes. Provar um a um separado é insípido. Retirar Lorde O., Lorde A., Lorde C., ou o sr. M., cada um deles separadamente não é nada. Misturados, todos juntos, combinam, produzindo o mais inebriante sabor e o mais sedutor dos aromas. Contudo, essa embriaguez e essa sedução fogem completamente à nossa análise. Por isso, ao mesmo tempo, a sociedade é tudo e a sociedade é nada. A sociedade é a mais poderosa mistura do mundo e a sociedade em si não existe. Com tal monstro só os poetas e os novelistas podem lidar; com esse tudo e esse nada suas obras atingem um volume considerável; e para eles o deixamos, com a melhor das boas vontades.”

orlando, p.137
virginia woolf

perfis

" Minha cegueira vinha gradualmente, desde a infância. Era um crepúsculo lento, estival. Não havia nada de especialmente patético ou dramático nela. [...] A cegueira também parece ser comum entre os Diretores da Biblioteca Nacional. Dois de meus eminentes predecessores, José Mármol e Paul Groussac, sofreram o mesmo destino. Em meu poema (Poema das Dádivas) falo da esplêndida ironia de Deus em conceder-me a um só tempo oitocentos mil livros e a escuridão. "

perfis, um ensaio autobiográfico, p.114
j. l. borges

perfis

" Isso me lembra a sugestão de Mark Twain de que se poderia iniciar uma excelente biblioteca deixando-se de lado as obras de Jane Austen e que, mesmo se essa biblioteca não contivesse nenhum outro livro, ainda seria uma excelente biblioteca, visto que os livros dela teriam ficado de fora "

perfis, um ensaio autobiográfico, p.93
j. l. borges

outras inquisições

" O homem sabe que há na alma matizes mais desconcertantes, mais inumeráveis e mais anônimas que as cores de uma floresta outonal... Crê, no entanto, que esses matizes, em todas as suas fusões e conversões, são representáveis com precisão por um mecanismo arbitrário de grunhidos e chiados. Crê que dentro de um corretor da bolsa possam realmente sair ruídos capazes de significar todos os mistérios da memória e todas as agonias do desejo" (G.F. Watts, p.88, 1904)

o idioma analítico de john wilkins, outras inquisições, p.126
jorge luis borges