SÓ PARA VERSOS QUE LI...

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

El valor de la narratividad en Hayden White: Crítica, ambivalencia y escritura de la historia.

"Ahora bien, así como no debemos elevar la narratividad a una manifestación del Ser (Ricoeur) tampoco necesitamos purgar al escrito histórico de toda narratividad (Barthes). Nuestras únicas alternativas no son la epifanía o la distorsión."


"El valor de la narratividad en Hayden White: Crítica, ambivalencia y escritura de la historia." In: Verónica Tozzi and Nicolás Lavagnino (eds.), Hayden White, la escritura del pasado y el futuro de la historiografía. (Buenos Aires, EDUNTREF, Forthcoming 2012)

sábado, 4 de janeiro de 2014

As horas

"Podia simplesmente deixá-los e regressar à sua outra casa, onde nem Sally nem Richard existem, onde há apenas a essência de Clarissa, uma rapariga que se transformou numa mulher, ainda cheia de esperança, ainda capaz de tudo. É-lhe revelado que toda a sua mágoa e solidão, toda essa estrutura frágil, deriva simplesmente de fingir viver neste apartamento entre estes objetos, com a boa e nervosa Sally, e que, se partir, será feliz, ou melhor ainda do que feliz: será ela mesma. Sente-se fugaz e maravilhosamente só, com tudo pela frente."

CUNNINGHAM, Michael. As Horas. São Paulo: Cia das Letras, 1999.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

o prazer do texto

"Na guerra das linguagens, pode haver momentos tranqüilos, e esses momentos são textos ( A guerra, diz uma das personagens de Brecht, não exclui a paz... A guerra tem seus momentos pacíficos... Entre duas escaramuças, pode-se esvaziar muito bem um canecão de cerveja... ). Entre dois assaltos de palavras, entre duas majestades de sistemas, o prazer do texto é sempre possível, não como uma distração, mas como uma passagem incongruente dissociada de uma outra linguagem, como o exercício de uma fisiologia diferente." p. 41

"... todo escritor de prazer tem suas ruborizações imbecis (Balzac, Zola, Flaubert, Proust; somente Mallarmé talvez é senhor de sua pele): no texto de prazer, as forças contrárias não se encontram mais em estado de recalcamento, mas de devir: nada é verdadeiramente antagonista, tudo é plural." p. 43 


BARTHES, Roland. O prazer do texto. Tradução: J. Guinsburg. São Paulo: editora perspectiva, 1987.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Bobók

Acho que o mais inteligente é quem ao menos uma vez por mês chama a si mesmo de imbecil — capacidade de que hoje não se ouve falar! Antes ao menos uma vez por ano o imbecil sabia sobre si mesmo que era imbecil, mas hoje, nem isso. E confundiram tanto a coisa que a gente não distingue o imbecil do inteligente.

DOSTOIÉVSKI, F. Bobók. Tradução de Paulo Bezerra. Editora 34, 2013.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

o sequestrado de veneza

"Nada acontece e nada dura, o nascimento é o espelho da morte; entre os dois há a terra arrasada, tudo é corroído pela má sorte"

SARTRE, Jean-Paul.O sequestrado de Veneza. Trad. Eloisa Araújo Ribeiro. São Paulo: Cosac Naify, 2005. p.25

O sequestrado de Veneza

"Só que em Veneza nada é simples. Pois não é uma cidade, não: é um arquipélago. Como poderíamos esquecer? De sua ilha, você olha a da frente com inveja: ali, há .. o quê? Uma solidão, uma pureza, um silêncio que não há, você juraria, do lado de cá. A verdadeira Veneza, onde quer que você esteja, está sempre em outra parte. Para mim, ao menos, é assim.  Normalmente, contento-me com o que tenho, mas, em Veneza sou presa de uma espécie de loucura invejosa, se não me contivesse estaria o tempo todo na ponte ou nas gôndolas, procurando desvairadamente a Veneza secreta da outra borda. Naturalmente, assim que a abordo, tudo desvanece, me volto: o mistério tranquilo formou-se novamente do outro lado. Há muito me resignei: Veneza está lá onde não estou."

SARTRE, Jean-Paul.Veneza de minha janela, In: O sequestrado de Veneza. Trad. Eloisa Araújo Ribeiro. São Paulo: Cosac Naify, 2005. p. 10

domingo, 1 de dezembro de 2013

"Estar com quem se ama e pensar em outra
coisa: é assim que tenho os meus melhores
pensamentos, que invento melhor o que e
necessário ao meu trabalho. O mesmo sucede com
o texto: ele produz em mim o melhor prazer se
consegue fazer-se ouvir indiretamente; se, lendoo,
sou arrastado a levantar muitas vezes a cabeça,
a ouvir outra coisa."

BARTHES, Roland. O prazer do texto. Tradução: J. Guinsburg. São Paulo: editora perspectiva, 1987. p. 34

domingo, 17 de novembro de 2013

Aprendendo a viver

DEUS



Mesmo para os descrentes há a pergunta duvidosa: e depois da morte? Mesmo para os descrentes há o instante de desespero: que Deus me ajude. Estou precisando. Precisando mais do que a força humana. E estou precisando de minha própria força. Sou forte mas também destrutiva. Autodestrutiva. E quem é autodestrutivo também destrói os outros. Estou ferindo muita gente. E Deus tem que vir a mim, já que eu não tenho ido a Ele. Venha, Deus, venha. Mesmo que eu não mereça, venha. Ou talvez os que menos merecem precisem mais. Só uma coisa a favor de mim eu posso dizer: nunca feri de propósito. E também me dói quando percebo que feri. Mas tantos defeitos tenho. Sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor: às vezes parecem farpas. Se tanto amor dentro de mim recebi e continuo inquieta e infeliz, é porque preciso que Deus venha. Venha antes que seja tarde demais.

Clarice Lispector, Aprendendo a Viver, p.205-206.
 

sábado, 2 de novembro de 2013

baladas

 
Estou viva.
Mas a morte é música.
A vida, dissonância.
Minha alegria é como
fim de outono porque
tive nas mãos ainda flores
mas flores estriadas de sangue.

Há cristais coloridos
nos teus olhos.
Vida nos teus dedos.

Estou morta.
Mas a morte é amor.

Não fiz o crime dos filhos
mas sonhei bonecos quebrados
sonhei bonecos chorando.

Alguns dias mais
e serei música.
Serás ao meu lado
a nota dissonante.

baladas

IX

[...]
teu pobre olhar
atrofiou minha vida inteira.

baladas

IV

Brotaram flores
nos meus pés
E o quotidiano
da minha vida
complicou-se

[...]

baladas

V

[...]

Só não morro de amargura
 porque nem mais morrer eu sei.

poemas malditos, gozosos e devotos.

Hilda Hilst, poemas malditos, gozosos e devotos.


XXI


[...]
 Sorri, meu Deus, por mim. De cedro
De mil abelhas tu és. Cavalo-d'água
Rondando o ego. Te amei sonâmbula
Esdrúxula, mas te amei inteira.



sexta-feira, 1 de novembro de 2013

poemas malditos, gozosos e devotos.

Hilda Hilst, poemas malditos, gozosos e devotos.

I "Pés burilados
Luz - alabastro
Mandou seu filho
Ser trespassado

Nos pés de carne
Nas mãos de carne
No peito vivo. De carne.

Pés burilados
 Fino formão
Dedo alongado agarrando homens.
Galáxias. Corpo de homem?
Não sei. Cuidado.

Vive do grito
De seus animais feridos
Vive do sangue
De poetas, de crianças

E do martírio de homens
Mulheres santas.

Temo que se aperceba
De umas misérias de mim

Ou de veladas grandezas
Soberbas
De alguns neurônios que tenho
Tão ricos, tão carmesins.
Tem esfaimada fome
Do teu todo que lateja.

Se tenho a pedir, não peço.
Contente, eu mais lhe agradeço
Quanto maior a distância.
E dó porisso uma dança,
vezenquando
Se faz nos meus ossos velhos.

Cantando e dançando, digo:
Meu Deus, por tamanho esquecimento
Desta que sou, fiapo, da terra um cisco
Beijo-te pés e artelhos.

Pés burilados
Luz-alabastro
Mandou seu filho
Ser trespassado

Nos pés de carne
Nas mãos de carne
No peito vivo. De carne

Cuidado."

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

el placer del texto

"Y, sin embargo, es el ritmo de lo que se lee y de do que no se lee aquello que construye el placer de los grandes relatos: se ha leído alguna vez a Proust, Balzac, La guerra y la paz, palabra por palavra? (El encanto de Proust: de una lectura a otra no se saltam los mismos pasajes.)"

barthes. el placer del texto. p.21
LECTORES

De aquel hidalgo de cetrina y seca
tez y de heroico afán se conjetura
que, en víspera perpetua de aventura,
no salió nunca de su biblioteca.
La crónica puntual que sus empeños
narra y sus tragicómicos desplantes
fue soñada por él, no por Cervantes,
y no es más que una crónica de sueños.
Tal es también mi suerte. Sé que hay algo
inmortal y esencial que he sepultado
en esa biblioteca del pasado
en que leí la historia del hidalgo.
Las lentas hojas vuelve un niño y grave
sueña con vagas cosas que no sabe.

Borges. el otro, el mismo.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O prazer do texto

Então o velho mito bíblico se inverte, a confusão das línguas não é mais uma punição, o sujeito chega à fruição pela coabitação das linguagens, que trabalham lado a lado: o texto de prazer é Babel feliz.

BARTHES, Roland. O prazer do texto. Tradução: J. Guinsburg. São Paulo: editora perspectiva, 1987. p.7

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

O livro por vir

Mas que um escritor tão puro quanto Virginia Woolf, que uma artista tão empenhada em criar uma obra que retivesse somente a transparência, a auréola luminosa e os leves contornos das coisas, tenha se sentido de certa maneira obrigada a voltar para junto de si, num diário tagarela em que o Eu se derrama e se consola, isso é significativo e perturbador. O diário aparece aqui como uma proteção contra a loucura, contra o perigo da escrita. Lá, em As ondas, ruge o risco de uma obra em que é preciso desaparecer. Lá, no espaço da obra, tudo se perde e talvez a própria obra se perca. O diário é a ancora que raspa o fundo do cotidiano e se agarra às asperezas da vaidade. Da mesma forma, Van Gogh tem suas cartas e um irmão para quem escrevê-las.

BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p.273

sábado, 5 de outubro de 2013

fragmentos de um discurso amoroso

 "ADORÁVEL: Não conseguindo nomear a especialidade de seu desejo pelo ser amado, o sujeito apaixonado chega a essa palavra um pouco tola: adorável!"

[p.13]

 AFIRMAÇÃO

"...o que me anima surda e obstinadamente não é tático: aceito e afirmo fora do verdadeiro e do falso, fora do êxito e do malogro; estou destituído de toda finalidade, vivo conforme o acaso (a prova é que as figuras do meu discurso me vêm como lances de dados). Confrontado com a aventura (aquilo que me ocorre), não saio nem vencedor, nem vencido: sou trágico.
(Dizem-me: esse gênero de amor não é viável. Mas como avaliar a viabilidade? Por que o que é viável é um Bem? Por que durar é melhor que inflamar?)"

  [p.16-17]


Um pontinho no nariz
ALTERAÇÃO 

"(O horror de estragar é ainda mais forte que a angústia de perder,.)
[p. 21]

AUSÊNCIA
"Essa ausência bem suportada, não é outra coisa senão o esquecimento.  Sou momentaneamente infiel. É a condição da minha sobrevivência, se não esquecesse, morreria. O enamorado que não esquece de vez em quando, morre por excesso, cansaço e tensão de memória (como Werther)."

[p. 28]

 A carta de amor
"Quando Werther (em missão junto ao Embaixador) escreve à Charlotte, sua carta segue o seguinte plano: 1. Que bom pensar em você! 2. Aqui estou eu num meio mundano e, sem você, eu me sinto muito sozinho; 3. Encontrei alguém (a senhorita de B...) que parece com você, e com quem posso falar de você; 4. Faço votos que possamos estar juntos.- Variações de uma mesma informação, como um tema musical: penso em você.
O que quer dizer ‘pensar em alguém?’ Quer dizer: esquecê-lo (sem esquecimento a vida é impossível) e despertar frequentemente desse esquecimento. Por associação, muitas coisas te trazem para meu discurso. ‘Pensar em você’ não quer dizer nada mais que essa metonímia. Por que, em si, esse pensamento é vazio: eu não te penso, simplesmente te faço voltar (na mesma proporção que te esqueço). É essa forma (esse ritmo) que chamo de ‘pensamento’: nada tenho para te dizer..."


[p.32] 

Elogio das lagrimas
"me faço chorar para provar que minha dor não é uma ilusão: as lágrimas são signos e não expressões."

[p.42] 


Eu te amo 

passada a primeira confissão, 'eu te amo' não quer dizer mais nada; apenas retoma de um modo enigmático, de tanto que ela parece vazia, a antiga mensagem (que talvez não tenha passado por essas palavras). Eu o repito fora de toda pertinência; ele sai da linguagem, divaga, onde?"

[p.97] 

Ternura
O gesto terno diz: me pede qualquer coisa que possa adormecer teu corpo, mas não esquece que te desejo um pouco, ligeiramente, sem querer possuir nada imediatamente 

[p.190]

BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Tradução de Hortência dos Santos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1981 

 

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

o livro por vir

Borges compreende que a perigosa dignidade da literatura não é a de nos fazer supor, no mundo, um grande autor absorto em suas mistificações sonhadoras, mas a de nos fazer sentir a aproximação de uma estranha potência, neutra e impessoal. Ele gosta que digam de Shakespeare: 'Ele se parecia com todos os homens, exceto no fato de se parecer com todos os homens.' Ele vê, em todos os autores, um só autor que é o único Carlyle, o único Whitman, que não é ninguém. Reconhece-se em George Moore e em Joyce - poderia dizer em Lautréamont e em Rimbaud -, capazes de incorporar em seus livros páginas e figuras que não lhe pertencem, pois o essencial é a literatura, não os indivíduos; e, na literatura, que ela seja impessoalmente, em cada livro, a unidade inesgotável de um único livro e a repetição fatigada de todos os livros."

  p. 139